Cavaleiro

Cavaleiro
Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

Aulas regulares de Física com temas transversais

Por: Adílio Jorge Marques.

Seria possível trazer para a sala de aula uma visão menos teórica e “mecanizada” da disciplina de Física? Aprender sobre novas descobertas, contextualizando os pontos que estão sendo administrados em sala, sempre foi um desafio aos Professores. A proposta aqui apresentada vai de encontro à pressão dos vestibulares e demais concursos que hodiernamente permeiam o ensino secundário, mas que procurou abrir uma nova perspectiva da Física aos alunos. Foi por mim realizada, durante três anos consecutivos, em um colégio particular do Rio de Janeiro, e por um ano letivo em outro colégio, sendo este da rede pública estadual. A série abrangida sempre foi a 1ª série do Ensino Médio.

A proposta aqui exposta consistiu em abrir um espaço mínimo no tempo final de aula para que outros assuntos ou temas surgissem espontaneamente através dos próprios alunos. O tema principal proposto aos alunos foi justamente uma parte da matéria não trabalhada normalmente nos conteúdos curriculares: a Física Moderna e Contemporânea (chamada também de “FMC”). Esta parte da Física abrange temas atuais e não comumente discutidos nas escolas brasileiras, tais como: os trabalhos de Einstein, fenômenos da Astronomia e do sistema solar, a Física Nuclear, as idéias da Física Quântica, nanotecnologias, entre outros.

Tudo isso faz-nos lembrar do final do século XIX e início do século XX, quando a Física se transforma de maneira indelével. A descoberta dos “quanta” de energia por Max Planck em 1900 deu início a mudanças que culminaram com o surgimento em 1905, no cenário científico, de Albert Einstein. Este publicou um elegante artigo sobre a Teoria Especial da Relatividade, também chamada de Relatividade Restrita. Em 1915, a Relatividade Restrita foi ampliada em outro impactante trabalho einsteniano: a Teoria Geral da Relatividade. Surgiram assim novas formas de se ver a natureza, com novos referenciais, ou um espaço curvo pela presença de matéria. A medida do tempo passou a variar conforme a velocidade com que se deslocam os diferentes observadores. Nasceu assim, junto com o século XX, a chamada Física Moderna, atualizando-se com o tempo até ser também chamada de Contemporânea.

A História da Física e a evolução das idéias científicas também foram propostas aceitas por alguns alunos e apresentadas durante este projeto. Acredito que o conhecimento histórico das descobertas e o desenvolvimento das idéias ao longo do tempo facilitem o aluno a compreender melhor a estrutura da disciplina.

Todas foram ideias colocadas para os alunos de forma aberta e não obrigatória, ou seja, apenas àqueles que se sentissem à vontade para apresentar e participar se inscreveriam.


Metodologia

Com direito a uma apresentação oral por bimestre, o aluno(a) individualmente trazia algum tema que NÃO estivesse sendo estudado pelo Professor em sala de aula. Ou seja, deveria propor-se a falar, sempre ao final de alguma aula (em média de 5 a 10 minutos) sobre alguma nova descoberta, surgimento de alguma tecnologia, ou temas que envolvessem a Física e estivessem em nosso cotidiano, tendo sido ou não notícia na mídia. Ao final da apresentação poderiam ser feitas algumas perguntas, tanto pela turma quanto pelo Professor. Os conceitos eram debatidos por este ao final da apresentação e o aluno(a) ganhava uma determinada pontuação extra na sua média bimestral.

O material utilizado, assim como a forma de apresentação, era livre. Foram usados desde retroprojetor a cartazes, a simples exposição oral, ou mesmo raramente um data show. Alguns alunos procuraram realizar alguma experiência prática em sala de aula para explicitar melhor seu tema.

A bibliografia foi livre, tendo como base livros usuais de Ensino Médio que abrangesse os temas aqui propostos, algo já corriqueiro atualmente. Também foram usados livros de História ou Filosofia, a própria internet e revistas de divulgação científica. Não havia uma bibliografia fixa, pois os temas eram os mais variados. A supervisão das referências era feita pelo Professor.

Alguns dos temas apresentados foram: Titã, a maior lua de Saturno; as estrelas Anãs Marrons; a família solar; as galáxias; cargas em Engenharia Civil; cometas; como se formam os Buracos Negros; as idéias de Galileu para a Física; as Leis de Newton e o seu idealizador; a Física na migração dos pássaros; os planetas extra-solares; aurora austral e aurora boreal – como se formam; o que são as Supernovas; o empuxo na natureza; o laser e seu funcionamento; como se formam as ondas do mar; plasma, o 4º estado da matéria.


Conclusões

A participação foi da ordem de 50% em quase todas as turmas ao longo de todos os anos. O Professor do 2º ano do Ensino Médio afirmou que os alunos que passaram por este processo durante o 1º ano apresentaram maior facilidade de aprendizado e de compreensão, contextualizando melhor os temas de Física que surgiam no currículo.

Verificou-se maior segurança interior nos alunos para novos desafios, como falar em público, por exemplo. Também maior motivação em conhecer as aplicações da Física no seu cotidiano, “fugindo com mais prazer” dos exercícios teóricos dos livros e simulados de vestibulares.

As experiências práticas e a busca por novas informações flexibilizaram a discussão dos temas curriculares, trazendo maior proximidade entre a teoria e a prática, tornando o positivo o saldo deste projeto.



*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.

OS TEMPLÁRIOS E A SENDA JOANITA

Por: Adílio Jorge Marques


"Homenagem àquele dos discípulos que Jesus mais amava, segundo muitos. E que durante a Santa Ceia reclinou a cabeça no peito do Mestre com toda a sua doçura juvenil. Ao pé da cruz recebeu, em nome da humanidade, a Mãe de todos.”

“Simbolizado pelo cordeiro, símbolo da pureza, da paz, da inocência e da amorosidade, assim como o seu Mestre, e que pode ser visto repousando sobre um Livro Sagrado, um Livro da Lei, a palavra de Deus, transmitida através de São João Evangelista. Este pode ser entendido como o Apocalipse ou o Evangelho segundo ele mesmo, fechado com os sete selos do Apocalipse, selos estes que abrem as portas internas de nosso ser para a comunhão ou a Reintegração final com o Divino Criador. São também as sete virtudes cardeais do homem que superou os sete pecados capitais.”

“Outras vezes é visto o mesmo cordeiro joanino com a cruz do martírio, ou a cruz cristã, mostrando que sua voz ecoa pelo mundo cristão pela eternidade de seus escritos.”

“Ninguém pode ser um verdadeiro discípulo sem entrar no espírito que São João soube transmitir por sua vida e pelos seus sagrados escritos, em especial o seu Evangelho de luz e amor; a primeira Epístola, insuperável por suas reflexões sobre o amor fraternal e a unção do Espírito; e o Apocalipse, sempre atual e que nos submete às mais recônditas reflexões sobre nosso destino, preparando-nos para o segundo grande encontro com Jesus."

Autor desconhecido sobre o Evangelista.


O SIMBOLISMO

Todos os mitos relacionados aos deuses, santos, mártires ou mesmo aos grandes líderes de povos ou Manus, como diz a Teosofia, mostram personagens que marcaram a história de forma grandiosa e inequívoca. São João, Batista ou Evangelista, não fogem à regra descrita.
Um fato inquestionável liga todos os deuses ou deusas do passado ao entendimento e à simbologia mítica dos fenômenos celestes. A Astronomia, longe de ser fantasiosa ou sem importância, era uma ciência marcante e necessária aos povos antigos. Todos os povos mais adiantados, sem exceção, foram buscar nos mistérios solares ou lunares explicações para os ciclos humanos e os da natureza. O movimento do sol era muito importante em muitas culturas, especialmente para os primeiros cristãos e para a maioria das religiões e cultos modernos. O movimento aparente de nosso astro-rei durante os dias e o ano pelos céus inspiraram os sábios antigos e muitas das vezes trouxeram conhecimentos que revolucionaram o desenvolvimento da humanidade. Por exemplo, se nossa humanidade atual teve sua origem na mãe África, todas as fases humanas marcaram um degrau a ser cumprido: a era da pedra lascada, do bronze, do ferro, porém a mais abrangente seja a do cultivo dos próprios alimentos, ou seja, o desenvolvimento da agricultura. Esta possibilitou ao homem deixar de ser nômade para ter a condição de se estabelecer em determinados lugares e ali florescer como grandes povos do passado. [3]
Os egípcios à beira do Nilo talvez sejam os mais famosos dependentes dos recursos naturais para entenderem e dependerem das estações do ano para a própria sobrevivência. Existem ainda os calendários astronômicos de Stonehenge, provavelmente de origem celta, no norte da Europa. Logo, conhecer e dominar o estudo dos astros, principalmente a lua e o sol, deram uma espécie de "poder" e "magia" àqueles povos, governados de maneira geral por uma teocracia, possibilitando o florescimento excepcional que tiveram.
Os egípcios associaram a luz e o calor à vida e ao sol, através do deus Rá. E a escuridão e o frio à morte. A relação entre as duas estações mais extremadas levaram ao conhecimento de certas revoluções cósmicas que perduram até os nossos dias, mesmo que veladamente nas religiões em geral.
O verão é associado até hoje ao sol, calor, luz, vida, dinamismo, atividade, o triunfo da luz sobre a obscuridade do inverno, que por oposição significa o frio, a vida numa semente ou hibernando à espera do sol salvador que a fará irromper para o crescimento e para a vida.  Quando uma energia ascende, a semente da sua oposição já nasceu possibilitando um ciclo eterno do nascer e morrer de tudo o que temos dentro ou fora de nós. Os orientais associam esta idéia ao ciclo do Yin/Yang.
            Os antigos povos também perceberam que quatro estações básicas dominavam o cenário celeste, marcando também quatro épocas do ano que se repetiam periodicamente e conhecidas hoje pelas estações: verão, inverno, outono e primavera.  A questão do tempo contado em trimestres não era relevante para os povos antigos, pois não utilizavam o mesmo calendário que o nosso, contando o tempo como cíclico e não linear.  Mesmo povos com culturas milenares e que se utilizavam de calendários lunares - como os orientais - tinham que adaptar suas agriculturas e criações animais para as estações solares. [1]
            O dia 21 de junho, ou aproximadamente, coincide com o solstício de inverno no hemisfério sul, pois é quando o sol passa pelo trópico de Câncer, sendo o solstício de verão no hemisfério norte.
E o dia 21 de dezembro, ou aproximadamente, marca a passagem do sol pelo primeiro ponto do trópico de Capricórnio, sendo o solstício de verão no sul da Terra e o solstício de inverno para o norte.
O dia 27 de dezembro, próximo ao ápice do inverno no norte, é a data de São João Evangelista, foco deste texto. Para os povos ocidentais que nos antecederam, e que estavam no norte, o solstício de verão marcava o início da metade descendente do ano, e o solstício de inverno, inversamente, marcava a metade ascendente. Isto explica as palavras de São João Batista, cuja comemoração coincide com o ápice do verão no norte (24 de junho): "é preciso que Ele cresça (o Cristo, nascido no solstício de inverno em dezembro) para que eu decresça". [1]
            Tanto no oriente quanto no ocidente o solstício de Câncer, ou da Esperança, é a porta cruzada pelas almas mortais e é chamada de Porta dos Homens, ligado a São João Batista e às suas pregações aos homens sobre o advento do Cristo. O solstício de Capricórnio ou do Reconhecimento é a porta cruzada pelas almas imortais e por isso chamada de Porta dos Deuses.   Para os antigos egípcios o solstício de Câncer era dedicado ao Deus Anúbis.  Já os gregos o consagravam ao Deus Hermes.  Ambos os Deuses eram encarregados de conduzir as almas ao mundo extraterreno. [1]
            As festas do dois “São João” estão em relação direta com os dois solstícios. Esta é uma informação antiga acompanhada por quase todas as Tradições, em especial os Templários, pois lembremos que o Cristo é o “Sol Renovador” que veio a este mundo para trazer a Boa Nova e expurgar com seu fogo místico os pecados deste mundo.
Os Cavaleiros de Cristo são, também, Cavaleiros do Sol (ou solares), que buscam queimar suas mazelas internas. Os Cavaleiros de ontem e de hoje são constantemente remetidos ao deus romano Janus com suas duas faces opostas: o futuro e o passado. O mês de janeiro, em homenagem à Janus, marca justamente essa dualidade entre um ano que se finda e outro ano cósmico que se inicia marcado pelo nascimento da Luz, ou seja, de Jesus para os cristãos. O primeiro São João do tempo linear, São João Batista, anuncia a vinda do Vencedor. E o Evangelista propagará a sua palavra. [1]
Nos seis meses que separam as duas datas em homenagem aos dois santos um hiato de tempo cósmico se faz presente: exatamente como se os três principais anos da vida do Mestre estivessem resumidos na segunda metade do ano, entre a anunciação da vinda em junho e a propagação do Verbo e do Amor em dezembro.  Por exemplo, existe representada na Catedral de Ferrara a figura de Janus, vista com rostos masculinos e com um vaso sagrado na mão esquerda e o pão-corpo de Cristo na outra. É a simbologia dos dois São João aliada à do Cristo. Assim, por herança dos antigos que costumavam celebrar os solstícios, essa prática e seus mitos chegaram até nós. [2]
A semelhança entre as palavras Janus e Joannes facilitou a troca ou adaptação de um simbolismo pelo outro. A partir de Constantino, a fim de se realizar um sincretismo religioso com as crenças dos antigos povos e tradições ocidentais, o cristianismo incorporou tais datas de forma bastante feliz, pois se conseguiu manter intacto todo um conhecimento iniciático que poderia se perder com o tempo.
Muitas corporações de ofício medievais, com a proteção dos Templários, acabaram por adotar os dois São João como Patronos, o que em muitos casos permanece até os nossos dias.  Mesmo as muitas das antigas corporações de construtores dos exércitos romanos anteriores à Cristo, denominadas "Collegiatti", adotavam Janus como Deus protetor.
            Simbolismo também expresso pelo duplo sentido incluso no nome João. "HANAN" em hebraico possui o significado de "louvor", "benevolência", ou mesmo "misericórdia". Já o nome "JOHANAN" (ou IEHO-HANNAM) possui relação com o significado de "misericórdia de Deus", "graça de Deus", ou "louvor a Deus". O primeiro desses dois sentidos parece relacionar-se a São João Batista, e o segundo a São João Evangelista. Segundo Rene Guénon, pode-se dizer que a misericórdia é mais "descendente" e que o louvor mais "ascendente", justamente como no movimento anual do sol pelos céus. No verão nossa estrela é vista no zênite, no máximo de sua altura no céu, onde se pede misericórdia para suportar os dias frios que chegarão. E no inverno o sol encontra-se na posição mais baixa possível em relação ao seu ápice, onde depois só é possível ascender novamente e por isso é louvado na época hoje conhecida como o Natal. As variações dependem da posição da Terra em relação sol durante o ano. [1] - [2]
           

CONCLUSÃO

Muito mais se poderia dizer da obra e da vida deste ícone humano. Tomos inteiros não dariam conta do que se poderia abarcar da gnose joanina. A Igreja interna, eso, tomou para si o símbolo e o exemplo perene de São João Evangelista. A Igreja de Pedro e de Paulo, exo, buscou a temporalidade e o arrebatamento social e político dos povos. João buscou levar a Palavra a todos de seu tempo e deixar para as gerações do porvir, em especial aos Iniciados de sempre, a mensagem mais pura possível do Mestre.
A cada um de nós caberá, doravante, configurar em nossos corações o Templo Interior que João pregava.



BIBLIOGRAFIA

[1] Por que São João, nosso Padroeiro?; José Castelani; artigo.
[2] O Evangelho Esotérico de São João; Paul Le Cour; Ed. Pensamento.
[3] Símbolos Antigos e Sagrados; Ralph M. Lewis; Ed. Renes.

Padre Landell de Moura - O Pioneiro do Rádio no Mundo

http://br.geocities.com/preserveoam/landell.htm          

10/08/07

PALAVRAS-CHAVE: história + rádio, "Landell de Moura", rádio + origem, "Roberto Landell de Moura".


O padre e cientista Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, em 21 de janeiro de 1861, numa casa localizada na Rua Bragança, atual Rua Marechal Floriano. A residência se situava na esquina desta rua com a então Praça do Mercado. Em 19 de fevereiro de 1863 foi batizado na Igreja do Rosário, onde mais tarde se dedicaria às atividades de vigário. Era o quarto filho de Ignacio Ferreira de Moura e Sara Landell de Moura, que tiveram ao todo quatorze filhos. Os dois pais de Roberto Landell eram descendentes de ricas famílias gaúchas, de ascendência britânica.
Através do pai, Roberto Landell aprendeu a ler e escrever. Depois freqüentou a Escola Pública do Professor Hilário Ribeiro, e mais tarde no Colégio do Professor Fernando Ferreira Gomes. Em 1872, na idade de onze anos, estudou no Colégio Jesuíta de Nossa Senhora da Conceição, na cidade de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, onde concluiu o curso de Humanidades. Seguindo para a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, cursou a Escola Politécnica.
Juntamente com o irmão Guilherme Landell, Roberto viaja para Roma. Em 22 de março de 1878 ambos se matricularam no Colégio Pio Americano, e depois a Universidade Gregoriana. Nesta instituição, Roberto foi ordenado padre. Retornou ao Rio de Janeiro em 1886.
No Rio, Roberto Landell residiu no Seminário São José, e ainda em 1886 rezou a sua primeira missa, na Igreja do Outeiro da Glória. A missa foi realizada para o Imperador Dom Pedro II e toda sua comitiva. Favorecido com a situação, Roberto Landell conversava com o Imperador a respeito das idéias que o padre estudava sobre transmissão da imagem e do som. Roberto substituiu o coadjutor do capelão do Paço Imperial, e continuou expondo suas idéias científicas a Dom Pedro II.
Em 28 de fevereiro de 1887, Landell foi nomeado capelão da Igreja do Bomfim e se tornou professor de História Universal no Seminário Episcopal de Porto Alegre. A 25 de março de 1891 se tornou vigário, durante o período de um ano, na cidade de Uruguaiana, também no Rio Grande do Sul. Em 1892, Landell é transferido para o Estado de São Paulo, onde exerceu a função de vigário nos municípios de Santos, Campinas e na localidade Santana, na capital paulista e capelão do Colégio Santana, também em São Paulo.
Em julho de 1901 o padre viajou para os Estados Unidos da América do Norte. Retornou à cidade de São Paulo em 1905, sendo diretor das Paróquias de Botucatu e Mogi das Cruzes. Em 1908 regressou ao Rio Grande do Sul onde foi diretor da Paróquia do Menino Deus e, no ano de 1916, da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário.
Padre Landell foi precursor da radiotelefonia, tendo realizado experiências com telefonia sem fio. É também considerado o inventor do rádio, pois, em 1893, antes do cientista Guglielmo Marconi testar seu primeiro experimento com a transmissão de rádio, Landell realizou, do alto da Avenida Paulista para o alto de Santana, as primeiras transmissões de telegrafia e de telefonia sem fio, numa distância de oito quilômetros medidos por linha reta. Landell utilizava aparelhos transmissor e receptor inventados por ele. Estavam presentes no evento políticos locais, investidores estrangeiros e o próprio povo que estava perto do local. No ano seguinte, Landell fez sua primeira experiência com telégrafo sem fio.
Em 09 de março de 1901, Landell obteve uma patente brasileira com registro número 3279, referente a um “aparelho destinado à transmissão phonética à distância, com fio ou sem fio, através do espaço, da terra e do elemento aquoso”. Landell surpreende não apenas por ser pioneiro, mas por desenvolver sozinho todos os estudos que possibilitaram as experiências com transmissão e recepção de som. Ele acumulava as funções de cientista, de engenheiro e de operário de seus inventos.
Em julho Landell viaja para os Estados Unidos, com o objetivo de obter patente para seus inventos. Ele adquire três patentes na cidade de Washington: “Transmissor de Ondas” - aparelho precursor do rádio, em 11 de outubro de 1904, patente de número 771.917; “Telefone sem fio” e “Telégrafo sem fio”, em 22 de novembro de 1904, patentes de números. 775.337 e 775.846. Nas patentes são agregados vários avanços técnicos como a transmissão por meio de ondas contínuas, através da luz, princípio da fibra óptica e por ondas curtas; e a válvula de três eletrodos, peça fundamental no desenvolvimento da radiodifusão e para o envio de mensagens. Uma réplica do primeiro aparelho inventado por ele, o transmissor de ondas, foi construída por pesquisadores da Fundação da Ciência e Tecnologia (CIENTEC), em Porto Alegre, no ano de 1984.
Ainda em 1904 o Padre Landell inicia os testes precursores de transmissão da imagem. Em outras palavras, testava aquilo que viria a ser a televisão. Ele também testou a transmissão de textos, sendo precursor do teletipo,tão utilizado nos telejornais para envio de notícias pelas agências internacionais. Ambas as experiências eram feitas à distância, por ondas que, segundo um jornal paulista, eram denominadas de Ondas Landeleanas.
As Ondas Landeleanas, desenvolvidas pelas teorias científicas do Padre inventor, apesar de serem, aparentemente, do mesmo número das Ondas Hertzianas, diferem bastante destas últimas, pois estas são ondas mais ou menos amortecíveis e produzidas por movimentos vibratórios elétricos sem Constância nem Uniformidade, que vão aos poucos, decrescendo. Enquanto isso, as Ondas Landeleanas não estão sujeitas a tais transformações e são produzidas por movimentos vibratórios elétricos, cujos valores de ondulação são contínuos e permanecem sempre iguais.
Por isso, as Ondas Landeleanas desempenham, no seu sistema de telegrafia e telefonia-sem-fio, o papel de um condutor metálico. A idéia da criação desse campo de ondulação por meio do espaço, além de ser uma grande descoberta, tornou-se de grande alcance prático e científico, porque pode ser aproveitado para diversas finalidades. Através dessa idéia, baseava-se Landell na possibilidade de transmitir, também sem fio, a imagem a grandes distâncias. Daí ele ter concebido a idéia de televisão que hoje é trabalhada.
As descobertas de Landell começaram a ser utilizadas pelas Forças Armadas. Assim que o padre retornou ao Brasil, a Marinha de Guerra do Brasil realizou, no dia 01º de março de 1905, testes com a telegrafia por centelhamento, no encouraçado Aquidabã. Foram utilizados no experimento os aparelhos patenteados em 1901, no Brasil, e em 1904, nos Estados Unidos. A façanha credita à Marinha de Guerra brasileira o pioneirismo na radiotelegrafia permanente.
Landell, por ter sido o primeiro radioamador do mundo, é considerado o Patrono da Radiodifusão Amadora. É também Patrono dos Dexistas, radioamadores que, por hobby, fazem a chamada "rádio escuta", sintonizando várias rádios pelo mundo todo em busca de informação, entretenimento e curiosidades, podendo colaborar na comunicação e na transmissão de dados atuais no Brasil.
Roberto Landell, além das ciências físicas, se interessou pela química, biologia, psicologia, parapsicologia e medicina, sendo o primeiro cientista brasileiro que obteve o registro internacional de uma invenção pioneira. Suas descobertas estão servindo à humanidade do mundo inteiro até os dias de hoje, dando a Roberto Landell um prestígio e uma importância comparáveis ao engenheiro Alberto Santos Dumont, inventor do avião e do relógio de pulso.
Landell de Moura foi Cônego do Cabido Metropolitano de Porto Alegre. Em 17 de setembro de 1927 foi promovido, pelo Vaticano, a Monsenhor, e em janeiro de 1928 foi nomeado Arcebispo. Aos 67 anos, no dia 30 de junho de 1928, sábado, às 17:45 horas, o padre faleceu anonimamente, abatido pela tuberculose, num modesto quarto da Beneficência Portuguesa de Porto Alegre. No internamento no hospital e no enterro do padre cientista, estavam presentes amigos próximos, parentes e admiradores.
Na celebração do Primeiro Centenário da bem sucedida experiência pública do Padre Roberto Landell de Moura, acontecida em 1893, foi inaugurado um monumento em homenagem ao cientista, no dia 07 de junho de 1993, às 16:30 horas. O monumento está localizado na cidade de Santa Maria-RS, em frente ao Santuário de Nossa Senhora Medianeira.



SANTOS DUMONT
SEGUNDO LANDELL DE MOURA

Extraído da revista Domingo (Jornal do Brasil), em 14 de maio de 2006.

Assim o que foi Santos Dumont para a navegação aérea quanto ao mais leve e o mais pesado, foi o autor dessas linhas para a transmissão sem fio tanto do sinal inteligente como da palavra articulada.
Santos Dumont está bem, porém o seu colega contemporâneo vive esquecido porque cometeu um crime, o de querer sair da sacristia para mostrar ao mundo que a religião nunca se opôs ao progresso da humanidade e que o sol também passou e ainda continua a passar por essas plagas como vida. Tudo quanto tem feito o autor dessas linhas obedece as suas teorias sobre a unidade de forças e harmonia do universo, outrora muito combatida, porém hoje admitida por ele, e outros mais felizes conseguirão confirmá-la com os fatos.

O universal aristotélico e o iluminismo nas ciências naturais.

Por: Adílio Jorge Marques e André Vinícios Dias Senra.


A partir dos principais conceitos da metafísica aristotélica em relação aos primeiros princípios e as causas primeiras busca-se neste trabalho a relação com as proposições kantianas para o iluminismo. Os primeiros princípios são na lógica: identidade, não-contradição e terceiro excluído. Os princípios lógicos são ontológicos que definem as condições sem as quais um ser não pode existir nem ser pensado, e que garantem, simultaneamente, a realidade e a racionalidade das coisas na natureza. As causas primeiras são aquelas que explicam o que a essência é e também a origem e o motivo da existência de uma essência. Causa significava não apenas o porquê de alguma coisa, mas também o “o que” e o “como” uma coisa é o que ela é. São quatro as causas primeiras: causa material, isto é, aquilo de que uma essência é feita, sua matéria (como os quatro elementos da Antiguidade); causa formal, aquilo que explica a forma que uma essência possui (o rio ou o mar são formas da água, por exemplo); causa eficiente ou motriz, que explica como uma matéria recebeu uma forma para constituir uma essência (assim como o fogo é a causa eficiente que faz os corpos frios tornarem-se quentes); e a causa final, aquela que dá a finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é (por exemplo, o Primeiro Motor Imóvel é a causa final do movimento dos seres naturais).
Seria possível que o universal aristotélico tenha então influenciado o Iluminismo, principalmente até Kant? Tal relação pode ser estabelecida a partir de alguns pontos do texto “Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita”, de 1784, no qual Immanuel Kant (1724-1804) discorre brevemente sobre o papel da História e da racionalidade humana, pontos importantes para o entendimento das obras do pensador.(1) Através de nove proposições o filósofo de Königsberg tratou, também brevemente, do mecanismo subjacente ao devir da humanidade no seu todo: a physis.(2) Abriu-se, assim, o caminho para uma interpretação racional e científica do mundo.


Discussão

A idéia da Filosofia Primeira, além de receber o nome de Metafísica, também deve ser entendida como a noção aristotélica de ‘ciência’ teórica por excelência. As finalidades da Filosofia Primeira são pelo menos quatro: (a) o conhecimento das causas ou princípios primeiros; (b) o conhecimento do ser enquanto ser; (c) a indagação sobre a substância; (d) a indagação sobre Deus e a substância supra-sensível. De qualquer modo, sabe-se que o termo “Metafísica” seria equivalente à idéia de Filosofia Primeira. O objeto do qual se trata a partir da referência ao termo filosofia primeira, é o supra-sensível. Por supra-sensível, se entendem as formas puras, análogas ou semelhantes às Idéias platônicas. O estudo do Ser enquanto Ser foi denominado de Filosofia Primeira, e, posteriormente, na época moderna, foi denominado como razão pura. Este estudo consiste na análise das formas separadas dos aspectos materiais. Em Aristóteles, a metafísica já pode ser considerada como um saber que mantém proximidade com a idéia de mereologia, ou seja, a relação do todo com as partes. E isto porque Aristóteles procura desenvolver um modo de integração da filosofia pura em composição com aspectos realistas. A abordagem metafísica é, geralmente, associada com a dimensão religiosa da experiência humana.(3)
No espaço cultural alemão, um dos traços distintivos do iluminismo é a inexistência do sentimento anticlerical que, por exemplo, deu a tônica ao iluminismo francês. Os iluminados alemães possuíam na sua maioria até um profundo interesse e sensibilidade religiosa, e almejavam uma reformulação das formas de religiosidade. Nesta junção de política, ciência e moralidade, Kant mostra-se dentro da grande tradição clássica, a qual não admite separação entre a contemplação do mundo que nos cerca e a polis. Os homens não podem pressupor nenhum propósito racional peculiar exceto inquirir se eles não conseguirão descobrir uma intenção da natureza na História, a partir da qual seja possível que homens aparentemente sem um plano próprio estejam, no entanto, em consonância com um determinado plano da natureza. Deste modo a natureza se clarificaria através da razão de homens como Kepler ou Isaac Newton. Kant propõe que a essência, além de ser imutável, sempre idêntica a si mesma, pode ser pensada pelo intelecto dos homens, ainda que não seja matéria de conhecimento. Mesmo que deísticamente separado de nosso mundo e superior a tudo que existe, mostra-se também como causa primeira. Essência tal que a natureza mostraria aos seus perscrutadores como uma unidade interna e indissolúvel entre matéria e forma, unidade esta que lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é, podendo ser desta forma matematizada, como provirá Galileu.
Se na physis se refletem tão diferentes tipos de essências, e se para cada uma delas há uma ciência natural (física, biologia, astronomia, matemática, etc.), deve haver uma ciência universal, anterior a todas, essência geral interpretada como uma ciência teorética que investiga o que é e aquilo que faz com que hajam essências particulares e diferenciadas. A natureza denota um curso regular, um devir histórico que deve conduzir gradualmente o homem desde o estado inferior da animalidade até o nível máximo da iluminação, e que explica universalmente o ordenamento aparentemente irregular dos fatos. As ações e reações dos homens no seu mundo, com ênfase nas idéias de progresso e perfectibilidade humana, assim como a defesa do conhecimento racional como meio para a superação de preconceitos e ideologias tradicionais.(4) Segundo Angioni,

“Em “Segundos Analíticos” Aristóteles distingue quatro sentidos em que se pode empregar a expressão “por si mesmo”. Essa distinção, juntamente com elucidações sobre as noções de “a respeito de todo e “universal”, apresenta-se no momento em que Aristóteles procura determinar a natureza das premissas do conhecimento científico, tendo já determinado que o objeto de tal conhecimento seja aquilo que é necessário. Mais particularmente, Aristóteles busca discernir os tipos de premissas ou proposições em que seja necessária a conexão entre sujeito e predicado.” (5)

Notamos então, nas dez categorias de Aristóteles, que elas apresentam uma lista dos diferentes tipos de coisas que podem se afirmar a respeito de um indivíduo: substância, quantidade, qualidade, relação, espaço, tempo, postura, vestuário, atividade e passividade.6 Esta não é uma simples classificação de predicados verbais. Cada tipo de predicativo irredutivelmente diferente representava um tipo de ente também irredutivelmente diferente.
Entende-se por decorrência que para o estabelecimento da Física clássica newtoniana as categorias ou predicados tiveram que ser estudados não apenas por Kant, mas por todos os que repensaram a natureza. O desenvolvimento da cinemática, por exemplo, ou mesmo a dinâmica, podem ser essenciais ou acidentais, isto é, podem ser necessários e indispensáveis à natureza própria de um ser, ou podem ser algo que um ser possui por acaso ou que lhe acontece por acaso, sem afetar a sua natureza. Assim como os físicos, Kant partiu da mesma compreensão do que é a matéria o elemento principal de análise de toda a natureza; sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesmas possibilidades de transformação, isto é, de mudança, tornando possível um mundo racional newtoniano. Mesmo o homem estaria submetido a tal entendimento, pois o gênero é um universal formado por um conjunto de propriedades da matéria universal, sendo a forma o que caracteriza e o que há de comum nos seres de uma mesma espécie. Isso permitiu a Lineu7, por exemplo, propor a classificação das espécies ou mesmo a Darwin ter um parâmetro para uma teoria evolutiva, já que espécie também é um universal aristotélico formado por um conjunto de propriedades da matéria e da forma que caracterizam o que há de comum nos indivíduos semelhantes.
Partindo de tais premissas, Kant inicia sua pequena obra “Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita” com as seguintes palavras:

“Seja qual for o conceito que, ainda com um desígnio metafísico, se possa ter da liberdade da vontade, as suas manifestações, as ações humanas, como todos os outros eventos naturais, são determinadas de acordo com as leis gerais da natureza. A história, que se ocupa da narrativa dessas manifestações, permite-nos todavia esperar, por profundamente ocultas que estejam as suas causas, que, se ela considerar no seu conjunto o jogo da liberdade da vontade humana, poderá nele descobrir um curso regular; e que assim aquilo que se apresenta, nos sujeitos singulares, confuso e desordenado aos nossos olhos se poderá, no entanto, conhecer na totalidade da espécie como um desenvolvimento incessante, embora lento, das suas disposições originárias.
A História kantiana participa das mesmas leis gerais que regem a physis, podendo ser medida pelos critérios que marcam as ciências ditas exatas:
Assim os casamentos, os nascimentos deles derivados e a morte, já que a livre vontade dos homens sobre aqueles tem tão grande influência, não parecem estar submetidos à regra alguma, segundo a qual seja possível determinar de antemão o seu número, mediante um cálculo; e, no entanto, os quadros anuais dos grandes países mostram que eles ocorrem segundo leis naturais constantes, tal como as alterações atmosféricas, cuja previsão não é possível determinar com antecedência em cada caso singular, mas no seu conjunto não deixam de manter num curso homogêneo e ininterrupto o crescimento das plantas, o fluxo das águas e outros arranjos naturais. Os homens singulares, e até povos inteiros, só em escassa medida se dão conta de que, ao perseguirem cada qual o seu propósito de harmonia com a sua disposição e, muitas vezes, em mútua oposição, seguem imperceptivelmente, como fio condutor, a intenção da natureza, deles desconhecida, e concorrem para o seu fomento, o qual, se lhes fosse patente, pouco decerto lhes interessaria. Os homens, nos seus esforços, não procedem de modo puramente instintivo, como os animais, e também não como racionais cidadãos do mundo em conformidade com um plano combinado; parece-lhes, pois, que também não é possível construir uma história segundo um plano (como, por exemplo, acontece entre as abelhas ou os castores).” (8)

Das Proposições da obra “Idéia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita”, as primeiras já denotam claramente a estrutura histórica do Iluminismo:

Primeira Proposição: “Todas as disposições naturais de uma criatura estão determinadas a desenvolver-se alguma vez de um modo completo e apropriado”, o que se completa com a Segunda Proposição: “No homem (como única criatura racional sobre a terra), as disposições naturais que visam o uso da sua razão devem desenvolver-se integralmente só na espécie, e não no indivíduo”.(9)

Kant procura, com todas as premissas, talvez debater com J. J. Rousseau (1712 – 1778) sobre a liberdade humana. Para este o homem livre é aquele que está em seu estado natural, homem ainda não corrompido pela sociedade, que vive sozinho e procura apenas seu alimento para sobreviver. Se, além disso, esse homem ainda não tem ambições sociais, ele é livre. Neste ponto começa a crítica de Kant, o homem, com seu propósito de sabedoria, por isto homo sapiens, é um ser social, sendo que o homem só, em seu estado natural, é apenas mais um animal, não atingindo todas as suas potencialidades. Para Kant a sociedade regula o homem, exigindo dele que seus propósitos sejam atingidos, levando-o à pura razão. Na Quinta Proposição, Kant evidencia que “o maior problema do gênero humano, a cuja solução a Natureza o força, é a consecução de uma sociedade civil que administre o direito em geral”.(10)

O mundo não tem sentido a não ser que o homem dê algum sentido a ele. O que conhecemos é profundamente marcado pela maneira pela qual conseguimos conhecer algo, existindo duas principais fontes de conhecimento no sujeito: a sensibilidade, por meio da qual os objetos são dados na intuição, e o entendimento, pelo qual os objetos são pensados nos conceitos. O que define os objetos é a sensibilidade, como o modo receptivo/passivo pelo qual somos afetados pelos objetos, e intuição é a maneira direta de nos referirmos aos objetos. Para que todas estas impressões tenham sentido e entrem no campo do daquilo que se pode conhecer elas precisam ser colocadas em formas à priori da intuição, que são o espaço e o tempo. Depois de o sujeito perceber o objeto na intuição, na sensibilidade, pela faculdade do entendimento ele reunirá estas intuições em conceitos. E esta é também uma segunda condição para o conhecimento. Kant utiliza os conceitos básicos chamados de categorias, que são representações das intuições sensíveis. As categorias kantianas são doze:

1. Quantidade: Unidade, Pluralidade e Totalidade.
2. Qualidade: Realidade, Negação e Limitação.
3. Relação: Substância, Causalidade e Comunidade.
4. Modalidade: Possibilidade, Existência e Necessidade.


As doze categorias kantianas acima, pensadas à luz das categorias aristotélicas, irão fornecer à filosofia crítica de Kant condições básicas de impor à razão os limites da experiência possível. Ele pretende, com isso, fornecer rigor metodológico à metafísica, livrando-a de qualquer caráter dogmático e trazendo-a para o rumo da ciência, no qual não poderiam ocorrer questionamentos. Este método que analisa as possibilidades do conhecimento a priori do sujeito, dentro dos limites da experiência, é chamado de transcendental. Segundo Kant:

“Os homens, nos seus esforços, não procedem de modo puramente instintivo, como os animais, e também não como racionais cidadãos do mundo em conformidade com um plano combinado; parece-lhes, pois, que também não é possível construir uma história segundo um plano (como, por exemplo, acontece entre as abelhas ou os castores).” (11)

Nessa passagem percebe-se a ideia de movimento da história humana, pois se o homem não tiver essa disposição ao progresso teremos uma história plana, não evolutiva. No exercício desta disciplina é possível pensar que a sociedade humana caminha rumo ao progresso, e esse é o aperfeiçoamento moral, inevitável e necessário, conduzido no decorrer da história por uma “mão invisível”. Nas proposições que compõem o texto de Kant essa princípio condutor será buscado não na razão enquanto faculdade isolada de cada indivíduo, mas sim na naquela que abarca ou se manifesta universalmente, ou seja, na espécie.
Por fim, cabe à educação racional a incumbência da moralização humana. Kant observa que a moralidade diz respeito ao caráter. O caráter (em consonância com a distinção geral entre o aspecto fisiológico e o pragmático da antropologia) pode ser entendido a partir de dois sentidos: um físico ou sensível, que pertence ao homem enquanto ser natural e outro transcendental (ou inteligível), por meio do qual se reconhece no ser humano uma índole moral. O primeiro define o ser humano segundo o que a natureza faz dele, o segundo o que ele faz de si mesmo. É, portanto, na segunda perspectiva da formação do caráter que Kant situa o trabalho da educação moral iluminista. Por meio desta forma de educação “das Luzes” o ser humano é conduzido à prática da virtude e à formação da personalidade, o que produzirá avanços nas ciências naturais. Ou seja, uma ciência humana que modifica e cria um “ambiente” para o futuro das ciências da physis.(12)


Conclusões

Sendo comum a vários fatores observados na natureza, a razão de enfoque expressa pelo iluminismo alemão pôde embasar-se nos procedimentos empíricos desde Bacon, passando pelo mecanicismo cartesiano e até o newtonismo para criar seus procedimentos universais. Apesar da característica particular kantiana, os iluministas em geral tinham como ideal a extensão dos princípios do conhecimento crítico a todos os campos do mundo humano. Supunham poder contribuir para o progresso da humanidade e para a superação dos resíduos de tirania e superstição que creditavam ao legado da Idade Média, associaando ainda o ideal de conhecimento crítico à tarefa do melhoramento do estado e da sociedade. Princípios aristotélicos tiveram de ser abandonados por uma nova ciência ao longo da História, sem dúvida, como o lugar comum dos objetos e a sua cosmologia.(13) A ciência, a mesma História e a razão humana, contudo, não puderam deixar de se apoiar em muitos conceitos filosóficos do pensador estagirita.



Referências e Notas

1 – Kant, I. Ideia de uma História Universal com um propósito Cosmopolita, 1784. Tradução: Artur Morão. Em: http://www.lusosofia.net, acesso em 15 de fevereiro de 2008.
2 – Aristóteles, Física. Traducción y notas: Guillermo R. de Echandía, Planeta de Agostini, 1995.Em: Libera los Libros, http://www.divshare.com/download/2406853-8c3, acesso em 20 de maio de 2009.
3 – Mansion, A. Filosofia primeira, filosofia segunda e metafísica em Aristóteles. In: Sobre a Metafísica de Aristóteles, Marco Zingano (org.), São Paulo: Odysseus Editora, 2005.
4 – Aristóteles. Metafísica, trad. Valentin G. Yebra, Madrid: Editorial Gredos, 1982.
5 – Angioni, L. Relações causais entre eventos na ciência aristotélica: uma discussão crítica de Ciência e Dialética em Aristóteles, Analytica, vol. 8, nº 1, p. 13-25, 2004.
6 – Por exemplo, faria sentido dizer, por exemplo, que Sócrates era um ser humano (substância), media 1,80 m (quantidade), foi talentoso (qualidade), sendo mais velho do que Platão (relação), vivia em Atenas (espaço), era um homem do século V a.C. (tempo), estava sentado (postura), envergava uma capa (vestuário), estava costurando um pedaço de tecido (atividade) e foi morto por envenenamento (passividade).
7 – A importância de Lineu clarifica-se quando lembramos que ele foi o criador da nomenclatura binomial e da classificação científica, sendo considerado o “pai da taxonomia moderna”, sendo um dos fundadores da Academia Real das Ciências da Suécia.
8 – Cf. ref. 1, p. 3-4.
9 – Cf. ref. 1, p. 5.
10 – Cf. ref. 1, p. 9.
11 – Cf. ref. 1, p. 4.
12 – O conceito de virtude em Immanuel Kant tem um significado diferente do conceito de virtude em Aristóteles. Enquanto para o Estagirita a virtude está diretamente relacionada com a felicidade, para Kant a virtude significa a disposição moral em combate, relacionando-se mais com a dignidade de ser feliz e não propriamente com a felicidade. Neste sentido a virtude deve repousar sobre princípios e não sobre interesses. Os sentimentos estariam ligados ao mundo físico; e os princípios estariam para além desse mundo físico, da experiência, e valeriam à priori.
13 – Proposição da Revolução Científica. In: Porto, C.M., Porto, M.B.D.S.M, A evolução do pensamento cosmológico e o nascimento da ciência moderna, Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 30, nº 4, p. 4601-1 a 4601-9, 2008.


*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições. Professor colaborador do Proeper/UERJ.
*André Vinícius Dias Senra é professor de Filosofia da rede estadual de ensino e da Pós-Graduação em Filosofia Medieval da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro e doutorando em Epistemologia pela UFRJ

Autoconhecimento reduz a barreira entre razão e emoção

Muitas situações podem ser evitadas quando conhecemos nossos sentimentos

 

http://yahoo.minhavida.com.br/conteudo/11991-Autoconhecimento-reduz-a-barreira-entre-razao-e-emocao.htm

Quantas vezes diante de determinadas situações ou problemas apresentamos, apresentamos determinadas reações e depois não entendemos o porquê? Quando nos conhecemos a fundo aprendemos a distinguir quais emoções norteiam nossas ações cotidianas.

Não nos damos conta, mas desde os primeiros anos de vida vamos desenvolvendo como forma de defesa, mecanismos que nos impedem de entrar em contato com emoções muito fortes (tristeza, solidão, felicidade, dor, angústia) como forma de proteção.

Entretanto, vamos ficando tão protegidos que chega um momento em que se torna bem difícil perceber quais emoções são evocadas durante os acontecimentos cotidianos e porque tomamos determinadas atitudes ou agimos de certas formas.  
"Junto com a angústia, a pessoa também carrega a culpa de estar sempre errado e a insegurança sobre como externar as emoções"
Como consequência dessa barreira construída, temos uma vida vazia e sem sentido, que muitas vezes é vivida de forma automática e rotineira. O ponto negativo de viver dessa forma é escutar apenas o outro, seguir padrões externos e não dar ouvidos a nossa própria vontade, opinião e necessidade.

Quem tem acesso a suas emoções, mas não tem instrumentos para lidar com elas, vive constantemente a angústia de tentar silenciá-las internamente a qualquer custo. Junto com a angústia, a pessoa também carrega a culpa de estar sempre errado, a insegurança sobre como externar as emoções, o medo de fazer o que quer e contrariar o outro, o receio de ser mau visto pela sociedade e de ser julgado pelos seus atos.

Através do autoconhecimento é possível reduzir a barreira entre a emoção e a razão para que sejamos capazes de reconhecer e desenvolver instrumentos para lidar com nossas habilidades, emoções, desejos, necessidades, tristezas, mágoas e sofrimentos. Consequentemente a angustia e a ansiedade são aplacadas e dão lugar a segurança, maturidade, tranquilidade, equilíbrio, auto-estima e amor próprio.  
Se você está se sentindo angustiado, sem esperança, confuso, triste ou com as emoções congeladas, busque métodos capazes de lhe ajudar a desenvolver o autoconhecimento, pois ele é fundamental para que a vida ganhe um sentindo e um novo significado.

Leonardo Boff: Por uma aliança entre Marina e Dilma

Leonardo Boff* apóia aliança entre Marina e Dilma.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. José Serra representa esse ideário. O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto. É aquí que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. O artigo é de Leonardo Boff.

Leonardo Boff, na Carta Maior.

O Brasil está ainda em construção. Somos inteiros mas não acabados. Nas bases e nas discussões políticas sempre se suscita a questão: que Brasil finalmente queremos?

É então que surgem os vários projetos políticos elaborados a partir de forças sociais com seus interesses econômicos e ideológicos com os quais pretendem moldar o Brasil.

Agora, no segundo turno das eleições presidenciais, tais projetos repontam com clareza. É importante o cidadão consciente dar-se conta do que está em jogo para além das palavras e promessas e se colocar criticamente a questão: qual dos projetos atende melhor às urgências das maiorias que sempre foram as “humilhadas e ofendidas” e consideradas “zeros econômicos” pelo pouco que produzem e consomem.
Essas maiorias conseguiram se organizar, criar sua consciência própria, elaborar o seu projeto de Brasil e digamos, sinceramente, chegaram a fazer de alguém de seu meio, Presidente do pais, Luiz Inácio Lula da Silva. Fou uma virada de magnitude histórica.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise econômico-financeira de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. Para facilitar a dominação do capital mundializado, procura-se enfraquecer o Estado, flexibilizar as legislações e privatizar os setores rentáveis dos bens públicos.

O Brasil sob o governo de Fernando Henrique Cardoso embarcou alegremente neste barco a ponto de no final de seu mandato quase afundar o Brasil. Para dar certo, ele postulou uma população menor do que aquela existente. Cresceu a multidão dos excluidos. Os pequenos ensaios de inclusão foram apenas ensaios para disfarçar as contradições inocultáveis.

Os portadores deste projeto são aqueles partidos ou coligações, encabeçados pelo PSDB que sempre estiveram no poder com seus fartos benesses. Este projeto prolonga a lógica do colonialismo, do neocolonialismo e do globocolonialismo pois sempre se atém aos ditames dos paises centrais.
José Serra, do PSDB, representa esse ideário. Por detrás dele estão o agrobusiness, o latifúndio tecnicamente moderno e ideologicamente retrógrado, parte da burguesia financeira e industrial. É o núcleo central do velho Brasil das elites que precisamos vencer pois elas sempre procuram abortar a chance de um Brasil moderno com uma democracia inclusiva.

O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Este projeto se constrói de baixo para cima e de dentro para fora. Que forjar uma nação autônoma, capaz de democratizar a cidadania, mobilizar a sociedade e o Estado para erradicar, a curto prazo, a fome e a pobreza, garantir um desenvolvimento social includente que diminua as desigualdades. Esse projeto quer um Brasil aberto ao diálogo com todos, visa a integração continental e pratica uma política externa autônoma, fundada no ganha-ganha e não na truculência do mais forte.

Ora, o governo Lula deu corpo a este projeto. Produziu uma inclusão social de mais de 30 milhões e uma diminuição do fosso entre ricos e pobres nunca assistido em nossa história. Representou em termos políticos uma revolução social de cunho popular pois deu novo rumo ao nosso destino. Essa virada deve ser mantida pois faz bem a todos, principalmente às grandes maiorias, pois lhes devolveu a dignidade negada.
Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto que deu certo. Muito foi feito, mas muito falta ainda por fazer, pois a chaga social dura já há séculos e sangra.

É aquí que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra. Marina em sua campanha lançou esse programa. Seguramente se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental proposto por Marina Silva.

Sonhamos com uma democracia social, popular e ecológica que reconcilie ser humano e natureza para garantir um futuro comum feliz para nós e para a humanidade que nos olha cheia de esperança.


* Leonardo Boff é teólogo.

A religião é inocente

Por: Ivani de Araújo Medina*

Se no tempo da pedra lascada houve uma convenção intercontinental das tribos para combinar a existência dos deuses, eu não sei. No entanto, posso afirmar que Deus é uma invenção recente. É produto da cultura urbana e de interesses maiores do que a compreensão do homem primitivo. Cultura é invenção. Não importa se o homem imenso de barba branca que inventou o céu, as estrelas, o mundo e a Humanidade, se a energia da inteligência criadora que governa o universo, se o Logos dos gregos, nada importa. Deus não criou nada, foi criado.
Essa criação sofisticada tornou-se crença obrigatória, não pela religião como muita gente pensa. A religião faz parte das manifestações culturais, como: língua, hábitos alimentares, costumes, arte, instituições, códigos, etc. Enfim, tudo o que um grupo humano cria como solução às próprias necessidades e confere a ele uma identidade que se relaciona com a produção, transmissão e perpetuação do saber. Isso se chama cultura. Tudo invenção, ou melhor, o melhor resultado que através do tempo aquele grupo conseguiu. Cada um é aquilo que lhe foi possível. Sublinhemos o fato de que religião não era a cultura de grupo algum, mas parte dela.
Cultura alguma se desenvolve linearmente, o dinamismo próprio da criatura humana não o permite, existem os outros. Lógico, tinha que ter alguém para dizer: o meu é muito melhor! Ainda que o desempenho do próprio grupo estivesse em desvantagem. Quando havia interesses comuns os grupos acabavam se fundindo, quando não, o pau comia. Gregos e persas viveram entre tapas e beijos. A Humanidade parece que sempre viveu em casa de vila. Falaram-se mal ontem, mas hoje se sorriem. Essa é a regra porque somos seres interdependentes.
Sabemos que quando existem regras, existem também exceções. Fique tranqüilo, prezado leitor, não vou repetir aquela história de gregos e judeus. Não há mais necessidade. Porém, justamente, estes últimos eram a exceção. Perdão, mas é isso mesmo. Enquanto o resto do mundo ainda cultuava os deuses, estes escolheram uma determinada estirpe a cultuar, simbolizada por um único deus. A originalidade deles estava na idéia de que esse deus era ciumento e havia transmitido pessoalmente um conjunto de leis que deveriam ser rigorosamente cumpridas. Assim, com o passar do tempo, esse grupo consolidou uma política religiosa que dirigia seus passos.
Na religião original o homem se alternava entre a vida profana e o momento sagrado. Sagrado significa “o que pertence aos deuses”. Havia o espaço sagrado apartado do mundo profano, em respeito à distância existente entre o Homem e seus criadores, no qual o contato imaginário se realizava. Já o deus dos judeus, que foi colocado acima de todos os outros deuses, não permitia que seu protegido se apartasse em momento algum do compromisso assumido com ele. Estava em todo lugar de olho no eleito. Não haveria para os seus uma vida profana, somente uma vida santa. Santo significa “separado”.
Desse modo a cultura judaica, com o seu modelo de crença organizada, distinguiu-se fundamentalmente das outras culturas. Era inamistosa porque a sua natureza assim exigia. Ao se estabelecer, a primeira providencia foi livrar aquele grupo da influência religiosa antiga e dos seus adversários profanos. Era uma verdadeira revolução ideológica que contemplava um grupo ainda em formação. Outra novidade fundamental unificava a autoridade jurídica e religiosa lhe reservando o poder civil. Religião alguma existia assim.
A conclusão é que fica difícil classificar o judaísmo como religião. Quando o fator religioso reveste uma cultura, não se apresenta mais como uma das suas manifestações, significa que estamos diante de uma cultura religiosa e não mais de uma religião. Quando esse modelo foi incorporado pelos gregos, surgiu o cristianismo e, do cristianismo, o islamismo. Judaísmo, cristianismo e islamismo nunca foram religiões vitoriosas, como se acredita. São culturas religiosas e nasceram de um arrojado projeto político-religioso a se executar. Com efeito, é ilusão pensar na possibilidade de suas modernizações, pois o conceito de legalidade que os inspirou é eterno. As leis divinas mudarão jamais, segundo eles.
Deus é invenção da cultura religiosa e não da religião. Esse modelo recente na história e as suas versões respondem por todas as perversidades, desgraças e sanguinolências contra a Humanidade. A religião é inocente.

* Ivani é historiador do cristianismo e colaborador do Programa de Estudo das Religiões da UERJ/PROEPER.

Referências
ELIADE, Mircea, O sagrado e o profano. [tradução Rogério Fernandes] São Paulo: Martins Fontes, 1992.
JOHNSON, Paul. História dos judeus. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
LARAIA, Roque de Barros, Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
TOYNBEE, Arnold J., A Religião e a história. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.

LHC descobre fenômeno inédito em prótons

Paula Rothman, de INFO Online Quinta-feira, 23 de setembro de 2010 - 14h59

SÃO PAULO -  O LHC, o Grande Colisor de Hádrons do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear) anunciou a detecção de um fenômeno inédito, nunca antes visto em uma interação de prótons.

O estudo de colisões de grande multiplicidade (onde 100 ou mais partículas são produzidas), revelou que algumas partículas estão, de certa forma, correlacionadas: elas se associam umas às outras no momento em que são criadas, no ponto de colisão.

A descoberta foi submetida à análise de cientistas fora da entidade, mas os sucessivos testes e repetições feitos indicam a autenticidade dos achados.
No túnel circular de 27 km enterrado na fronteira franco-suíça, pesquisadores aceleram e colidem partículas em velocidades medidas em trilhões de elétron volts (TeV). Um elétron volt (eV), é a energia adquirida por um elétron quando acelerado através de uma diferença de potencial de 1 volt.

Essas poderosas colisões, que utilizam feixes de partículas (como prótons), buscam imitar as condições existentes próximas ao Big Bang e que possibilitaram a criação do universo. Seis experimentos são realizados na estrutura do LHC - e um deles é o chamado CMS (Compact Muon Solenoid). Ele foi projetado para buscar pelos Bósons de Higgs,ou Partícula de Deus, um conceito proposto por Peter Higgs, Robert Brout e François Englert há mais de 40 anos para explicar a origem das massas das partículas.
O CSM também visa encontrar pistas sobre a matéria escura, um elemento misterioso que representaria mais de 25% do Universo mas jamais teve sua existência provada.

Foram justamente dados recolhidos pelo CSM que mostraram esse novo fenômeno nos prótons. As correlações foram vistas entre partículas em colisões a 7 TeV.

Na análise, todos os pares de partículas carregadas produzidos em uma colisão foram selecionados e as diferenças entre as direções das partículas medidas – as chamadas correlações angulares que se formam conforme elas voam longe do ponto de impacto dos feixes.

Os dados revelaram que algumas delas estão intimamente ligadas de maneira nunca antes vista na em colisões de prótons. Esses resultados são semelhantes aos vistos em colisões de outras partículas feitas por outro equipamento, o RHI, do Laboratório Nacional Brookhaven, Estados Unidos, que haviam sido interpretados como a possível criação de matéria nas colisões.

O CERN ressalta, no entanto, que existem muitas possíveis explicações para o fenômeno nos prótons, e que outros dados ainda são necessários para entender por que isso está acontecendo.  


Mas afinal onde estão os Templários?

Por: Luis Matos (Portugal)


Uma Ordem com a antiguidade histórica da Ordem do Templo, para mais suprimida por meios violentos e injustos, deixou naturalmente muitos ecos da sua existência que perduram séculos. Para os estudiosos o problema da sobrevivência da Ordem não é um mistério, já que há dados suficientes para demonstrar que a Ordem foi suspensa pela Santa Sé, única autoridade reconhecida por ela, pelo que compete à mesma Santa Sé retomá-la ou não. Estou certo que o fará em moldes que chocarão profundamente a maior parte dos ditos “neo-templários” ou “templários” dos dias de hoje, arrasando de vez com mitómanas pretensões e tolices disfarçadas de “história”. Mas a seu tempo o veremos.

É para nós – e aqui falo em nome da Ordem que represento – completamente indiferente o que aconteceu ao “corpo”, parte tangível e mortal da Ordem Templária. Quem quiser o seu cadáver (e muitos o querem…), que o reclamem e lhes seja de boa serventia. O que nos importa é o interior, a dimensão espiritual e transcendente que compunha a mística da Ordem, a qual lhe é anterior e de origem ainda por apurar. Esse cimento invisível de coesão – que Filipe, o Belo, não pode matar ou queimar – esteve bem presente quando D. Dinis sabiamente apadrinhou a Ordem de Cristo. Essa chama que dá a luz imperecível, a mesma que assegura que o candelabro que ilumina a Santa Palavra sobre o altar de Chartres veicula idêntica luz espiritual que aquela candeia na noite gélida de Trancoso ilumina a Sagrada Família na sala da estar de uma velha mãe que reza em súplica a Maria piedosa pela sua prole, essa luz imortal que activa o Templo terrestre e procede do Templo celeste, essa é a causa e a força que nos interessa. Essa é a verdadeira chave que sobeja uma vez varridas as cinzas dos corpos calcinados na fogueira das tiranias humanas. Ao queimar corpos e carne e ossos, Filipe não impediu que o “ethos” Templário se prolongasse na história através de luminárias como a Ordem de Montesa, a Ordem de Calatrava, a Ordem de Alcântara, os Cavaleiros do Gládio da Ordem Teutónica, a Guarda Real de Robert Bruce, a Estrita Observância Templária e, porventura a mais brilhantes de todas as partículas em brasa dessa Fénix Templária que foi a Ordem de Cristo de Portugal. Se Filipe teve algum mérito foi o de tornar imortal uma Ordem que mostrava sinais de decadência. Foi o de multiplicar por dez os corpos que veicularam com êxito a missão e a ética Templária ao longo da Europa medieval e renascentista.

Ora, olhando profundamente se notará que parte do espírito Templário sintetizam uns e outros ramos dessa antiga família ainda activos nos dias de hoje. Há grupos excursionistas, cujas actividades se centram em viagens pelo mundo para assistir a uma missa e uma “investidura” de gente que jamais voltam a ver na vida. Essa é uma vertente. Há outros grupos que preferem os Jantares de Gala e toda a vaidade que com eles se vive. É um outro aspecto. Os Templários originais foram acusados muitas vezes de “bêbados e comilões, pouco interessados pelos pobres”, pelo que é perfeitamente legítimo andar a exibir essa parte da Tradição Templária pelo mundo. Porque não? O que é muito difícil encontrar é um filho, num dos ramos centrais ou colaterais, que mantenha as práticas mais puras e mais bem ancoradas na verdade Templária, que possam dar acesso à tal Cavalaria Espiritual que fez o Templo e o refez sempre que assim foi preciso ao longo da História.

No nosso caso, OSMTHU, ramo da OSMTH (obrigado a seguir caminho autónomo nos anos da 2ª Guerra a partir da OSMTJ), estamos muito pouco preocupados em saber se Clemente V foi conivente com Filipe deixando que os Templários fossem queimados na fogueira, ou se Clemente V não foi conivente, assinou um documento (“Carta de Chinon”) em que absolveu a Ordem, na sequência do qual deixou Filipe queimá-los na fogueira. Para nós, o “cheiro a esturro” não se dissipa. E nós, OSMTHU, fomos os primeiros (senão os únicos) a ser convidados por Barbara Frale e o Padre Pagano a visitar os Arquivos Secretos do Vaticano e ver o documento , nos idos de 2002. Contudo sabemos que documentos históricos devem ser enquadrados no seu contexto e tempo históricos, pelo que pretender reconhecer mais de 700 anos depois da assinatura da Carta de Chinon uma Ordem fundada mais de 400 anos após a mesma assinatura é de uma desfaçatez  e fantasia mitómana que em nada abona a organização que mantém esse fim, declarando à imprensa que vai “negociar” com o Vaticano… Como se o Vaticano negociasse este tipo de assuntos como quem regateia o preço das nabiças na saudosa Praça do Bolhão… Tenham paciência…

Estamos pouco preocupados em saber se o cadáver Templário pode ser exumado pelo simples facto de que o seu espírito e a sua força anímica, a sua componente transcendente (que não é de jantares anuais, mas, recorde-se, de MONGES -SOLDADOS), o seu SER, está vivo e é tão coerente hoje como o era há 800 anos. É tão Templário como sempre o foi.

Dito isto, há que reconhecer que este post é motivado pela verdadeira avalanche de emails, comentários e pedidos que temos recebido nos últimos dias de entrada na Ordem. Isto deve-se à recente cerimónia realizada em Coimbra por um outro ramo da Ordem que teve cobertura mediática muito razoável. Sobre esse ramo não nos cabe pronunciar (mais uma vez, o frutos são o melhor indicador da árvore que os dá). Cabe sim esclarecer que a OSMTHU está numa fase de interioridade que não é compatível com cerimonial público. Por um tempo ainda indeterminado a Ordem considerou que é profundamente importante reforçar os dois aspectos marcantes da nossa Tradição:

a) A Instrução da Cavalaria (quer histórica, quer filosófica, quer simbólica)
b) A Instrução Religiosa (sem a qual o potencial Cavaleiro não pode realizar a plenitude da iniciação MONGE-SOLDADO)

Estas duas componentes aparentemente contrárias (a do guerreiro que tem o poder de matar e a do sacerdote que tem o poder de absolver) são específicas do nosso ramo da Tradição Templária e não se encontram disponíveis em nenhum outro ramo activo neste momento.

Deste modo, a OSMTHU em Portugal determinou que, antes de se proceder a qualquer tipo de aproximação à Ordem, é de vital importância que possíveis candidatos às suas fileiras entendam de modo muito claro o que é a Ordem e o que podem de forma REALISTA esperar da sua filiação. Deste modo, estabeleceu-se um protocolo com o In Hoc Signo Hermetic Institute (ver www.ihshi.com) que permite a qualquer postulante empreender um período de estudo aprofundado através do Grupo de Estudos Templários, após o qual está melhor posicionado para decidir que ramo da enorme família Templária mais se coaduna com as suas aspirações.

Assim, até notícia em contrário e à semelhança de outras Ordens de carácter iniciático, a OSMTHU em Portugal delega no Instituto IHS a fase introdutória de preparação e orientação prévia dos seus futuros membros.

Mas afinal onde estão os Templários?

Ao leme, Senhor… Ainda estão ao leme.

O método alegórico de interpretação bíblica e suas origens

Por: Kadu Santoro

O método alegórico faz a aproximação dos textos bíblicos por analogia figurada, mostrando que o sentido literal da própria palavra é insuficiente para revelar o significado da verdade dos mistérios cristãos. Assim, por intermédio de alegorias, que são metáforas, símbolos e mitos, acreditam expressar de forma mais profunda a essência da doutrina.

A Escola de Alexandria, foi sem dúvida, a maior representante da interpretação alegórica das Escrituras do Antigo Testamento. Seu sistema interpretativo teve influência direta da filosofia grega, principalmente de dois filósofos muito importantes. O primeiro foi Heráclito (Éfeso, 540 a.C.? – 475 a.C.?), ele criou o conceito de “huponóia”, que significa um sentido mais profundo, para ele, o verdadeiro sentido do texto, estava além das palavras. O segundo foi Platão, ele formou um conceito de que o mundo em que vivemos, é apenas uma representação do que existe no mundo perfeito das realidades imateriais, o “mundo das idéias”.

Fílon de Alexandria, judeu erudito, também foi influenciado pela filosofia grega, principalmente pela filosofia platônica, para ele Moisés e Platão eram dois heróis. Além de possuir uma sólida formação judaica, Fílon era um grande estudioso das Escrituras veterotestamentárias traduzidas para o grego (LXX – Septuaginta), da qual, estabeleceu de forma alegórica (alegorese), uma harmonização dessas Escrituras com a filosofia grega. Fílon escreveu vários comentários bíblicos utilizando o método alegórico, como por exemplo, nos seus comentários de Gênesis, um deles é sobre a criação do jardim do Éden (Gn 2.8-14), onde o rio Gion (2.13) significa “coragem” e circunda a terra de Cuxe, que significa “humilhação”; o sentido alegórico encontrado nessa passagem, é que a coragem dá demonstrações de bravura diante da covardia. Já o rio Tigre (2.14) significa temperança, pois como um tigre, resiste resolutamente ao desejo. O Eufrates (2.14) não se refere ao rio. O sentido alegórico é “justiça”. O rio Pisom (2.11) significa “mudança na boca” e Havilá “tagarelar”, que Fílon interpreta como significando “insensatez”. A interpretação alégórica da passagem, é que a insensatez é destruída pela “mudança na boca”, que é o falar com prudência.


A Escola de Alexandria usava uma teologia com base na interpretação alegórica das Escrituras, formada pela combinação entre a erudição filosófica grega e as verdades fundamentadas nos escritos veterotestamentários. Para essa escola, as Escrituras Sagradas tinha a função de narrar os acontecimentos, sugerir ensinos, conceitos morais e exigir a busca de um sentido mais profundo. Os principais representantes dessa escola foram: Panteno (fundador), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) e Orígenes (185-253 d.C.). Clemente de Alexandria, foi o primeiro a lidar seriamente com questões de interpretação bílbica, usava a interpretação alegórica para descobrir o sentido oculto das passagens bíblicas, e harmonizar os dois Testamentos. Para ele, o objetivo de Deus em revelar-se alegoricamente, era para ocultar a verdade dos incrédulos e descortiná-la apenas para os realmente espirituais. Orígenes era um estudioso muito respeitado, para ele, a melhor maneira de se compreender a Bíblia, é através da perspectiva platônica. Para ele, a Bíblia contém segredos que somente a mente espiritual pode compreender. O sentido literal é valioso, mas algumas vezes, obscurece o sentido primordial, que é o sentido espiritual. O sentido literal é apenas para os neófitos, mas o espiritual é para os maduros na fé. Orígenes influenciou muitos Pais da Igreja como: Dionísio o Grande, Eusébio de Cesaréia e Cirilo de Alexandria.


Bibliografia:
BOGAZ, Antônio S. - Patrística: Caminhos da tradição cristã – Paulus – SP – 2008. FRÖHLICH, Roland, Curso Básico de História da Igreja, São Paulo, Paulus, 1987.


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