Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

Aulas regulares de Física com temas transversais

Por: Adílio Jorge Marques.

Seria possível trazer para a sala de aula uma visão menos teórica e “mecanizada” da disciplina de Física? Aprender sobre novas descobertas, contextualizando os pontos que estão sendo administrados em sala, sempre foi um desafio aos Professores. A proposta aqui apresentada vai de encontro à pressão dos vestibulares e demais concursos que hodiernamente permeiam o ensino secundário, mas que procurou abrir uma nova perspectiva da Física aos alunos. Foi por mim realizada, durante três anos consecutivos, em um colégio particular do Rio de Janeiro, e por um ano letivo em outro colégio, sendo este da rede pública estadual. A série abrangida sempre foi a 1ª série do Ensino Médio.

A proposta aqui exposta consistiu em abrir um espaço mínimo no tempo final de aula para que outros assuntos ou temas surgissem espontaneamente através dos próprios alunos. O tema principal proposto aos alunos foi justamente uma parte da matéria não trabalhada normalmente nos conteúdos curriculares: a Física Moderna e Contemporânea (chamada também de “FMC”). Esta parte da Física abrange temas atuais e não comumente discutidos nas escolas brasileiras, tais como: os trabalhos de Einstein, fenômenos da Astronomia e do sistema solar, a Física Nuclear, as idéias da Física Quântica, nanotecnologias, entre outros.

Tudo isso faz-nos lembrar do final do século XIX e início do século XX, quando a Física se transforma de maneira indelével. A descoberta dos “quanta” de energia por Max Planck em 1900 deu início a mudanças que culminaram com o surgimento em 1905, no cenário científico, de Albert Einstein. Este publicou um elegante artigo sobre a Teoria Especial da Relatividade, também chamada de Relatividade Restrita. Em 1915, a Relatividade Restrita foi ampliada em outro impactante trabalho einsteniano: a Teoria Geral da Relatividade. Surgiram assim novas formas de se ver a natureza, com novos referenciais, ou um espaço curvo pela presença de matéria. A medida do tempo passou a variar conforme a velocidade com que se deslocam os diferentes observadores. Nasceu assim, junto com o século XX, a chamada Física Moderna, atualizando-se com o tempo até ser também chamada de Contemporânea.

A História da Física e a evolução das idéias científicas também foram propostas aceitas por alguns alunos e apresentadas durante este projeto. Acredito que o conhecimento histórico das descobertas e o desenvolvimento das idéias ao longo do tempo facilitem o aluno a compreender melhor a estrutura da disciplina.

Todas foram ideias colocadas para os alunos de forma aberta e não obrigatória, ou seja, apenas àqueles que se sentissem à vontade para apresentar e participar se inscreveriam.


Metodologia

Com direito a uma apresentação oral por bimestre, o aluno(a) individualmente trazia algum tema que NÃO estivesse sendo estudado pelo Professor em sala de aula. Ou seja, deveria propor-se a falar, sempre ao final de alguma aula (em média de 5 a 10 minutos) sobre alguma nova descoberta, surgimento de alguma tecnologia, ou temas que envolvessem a Física e estivessem em nosso cotidiano, tendo sido ou não notícia na mídia. Ao final da apresentação poderiam ser feitas algumas perguntas, tanto pela turma quanto pelo Professor. Os conceitos eram debatidos por este ao final da apresentação e o aluno(a) ganhava uma determinada pontuação extra na sua média bimestral.

O material utilizado, assim como a forma de apresentação, era livre. Foram usados desde retroprojetor a cartazes, a simples exposição oral, ou mesmo raramente um data show. Alguns alunos procuraram realizar alguma experiência prática em sala de aula para explicitar melhor seu tema.

A bibliografia foi livre, tendo como base livros usuais de Ensino Médio que abrangesse os temas aqui propostos, algo já corriqueiro atualmente. Também foram usados livros de História ou Filosofia, a própria internet e revistas de divulgação científica. Não havia uma bibliografia fixa, pois os temas eram os mais variados. A supervisão das referências era feita pelo Professor.

Alguns dos temas apresentados foram: Titã, a maior lua de Saturno; as estrelas Anãs Marrons; a família solar; as galáxias; cargas em Engenharia Civil; cometas; como se formam os Buracos Negros; as idéias de Galileu para a Física; as Leis de Newton e o seu idealizador; a Física na migração dos pássaros; os planetas extra-solares; aurora austral e aurora boreal – como se formam; o que são as Supernovas; o empuxo na natureza; o laser e seu funcionamento; como se formam as ondas do mar; plasma, o 4º estado da matéria.


Conclusões

A participação foi da ordem de 50% em quase todas as turmas ao longo de todos os anos. O Professor do 2º ano do Ensino Médio afirmou que os alunos que passaram por este processo durante o 1º ano apresentaram maior facilidade de aprendizado e de compreensão, contextualizando melhor os temas de Física que surgiam no currículo.

Verificou-se maior segurança interior nos alunos para novos desafios, como falar em público, por exemplo. Também maior motivação em conhecer as aplicações da Física no seu cotidiano, “fugindo com mais prazer” dos exercícios teóricos dos livros e simulados de vestibulares.

As experiências práticas e a busca por novas informações flexibilizaram a discussão dos temas curriculares, trazendo maior proximidade entre a teoria e a prática, tornando o positivo o saldo deste projeto.



*Adílio Jorge Marques é professor de Física e História da Ciência da rede pública e particular de ensino do Rio de Janeiro. Pesquisador em História da Ciência luso-brasileira e história das Tradições.

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