Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

SÃO CRISTOVÃO DA CHAROLA – UMA HISTÓRIA COM PÉS E CABEÇA


Encontra-se numa pintura mural da Charola Templária em Tomar um insólito São Cristóvão representado como cinocéfalo, ou seja, com cabeça de canídeo. Pretende este post revelar e dar a conhecer o motivo dessa misteriosa representação. Serve também de complemento ao post anterior quanto à influência que o médio oriente pode ter exercido sobre esse grande mestre Templário Português que foi Gualdim Pais.

Dos diversos mistérios que Tomar encerra, a imagem de São Cristóvão com cabeça de canídeo, representada numa pintura mural da Charola, tem sido um dos que mais tem intrigado os que estudam os segredos de Tomar.

Não se conhece a data exata da pintura, mas calcula-se ser anterior ao período Manuelino, situando-a alguns autores no século XIV e outros no tempo de Gualdim Pais. A imagem não está em bom estado de conservação pelo que pode ser subjetiva, senão abusada, a interpretação de São Cristóvão com cabeça de cão, porém é certo tratar-se de um São Cristóvão com todos os seus atributos iconográficos.

Apesar de pessoalmente não conseguir reconhecer tal cabeça na dita imagem, irei partir desse pressuposto para concluir por uma ideia que pode concorrer com algumas das explicações dadas.

As referências literárias tomam-na como "um intrigante São Cristóvão pintado numa das paredes interiores da Charola com cabeça de cão à semelhança do deus egípcio Anúbis, divindade psicopompica ou de passagem entre duas dimensões, dois estados de consciência. É equivalente ao deus lusitano Endóvelicos, a Lug e a Hermes", ou então, “e sendo São Cristóvão o gigante que conduz Cristo, fonte de luz, de uma margem a outra margem de um rio, é evidentemente, uma metáfora do percurso de Órion (também gigante) que guia o Sol no atravessamento da Via Láctea (o rio celeste). Outrora tal fenômeno astronômico era associado à festa da Ascensão, conferindo, assim, a São Cristóvão a função de psicopompa, isto é, de condutor das almas para a sua morada celeste”, segundo literatura diversa que aborda essa pintura.

Ainda citando outra literatura quanto aquela imagem, podemos ver que “Cão refere-se à Constelação do hemisfério austral, a Sueste da de Órion. Inicialmente, estava ligada apenas à estrela Sírio, a mais brilhante deste conjunto e até dos Céus. Esta é o Cão Maior; o Cão Menor fica a seu Norte. Ora, aquela fica no fim da Estrada de Santiago, ou seja, o final da Via Láctea. Por isso, temos intimas relações entre os membros da Ordem do Templo e os da Ordem de Santiago, caminho terrestre em sintonia com o do macrocosmo.”
Após esta introdução começaremos aqui a aventura que antecedeu a conclusão que constitui a teoria que nos propomos a defender.

Numa das nossas incursões pela charola, e admirando a imagem em questão numa tentativa de reconhecer os diversos elementos que a compõem, reparo que o menino Jesus transportado nas costas por São Cristóvão parece ter os pés tortos. Tortos? Seria esse detalhe um pé ou uma mão? Estaria mesmo torto ou serão às vicissitudes do tempo, que tanto deteriorou aquela imagem, a levar-me a pensar estar perante um Cristo de pés tortos?
Se assim fosse isso abria-nos uma nova porta para investigar a estranheza da imagem. Era uma pista para tentarmos chegar a outras conclusões quanto aquela imagem.

Obviamente o Cristo de pés tortos gerou comentários em tom jocoso e originou um momento lúdico entre nós, mas na verdade estávamos perante uma possibilidade e nem a percebemos na altura. Teria isso sentido algum?

Para admiração de todos nós, existe entre os Bizantinos a ideia de que Cristo tinha uma perna mais curta que outra, originando representações onde tal se evidencia. Existe também a ideia de que talvez tivesse um pé torto. É, portanto, sobejamente conhecida a teoria do Cristo Coxo no mundo Bizantino. Tudo isto está longe do nosso mundo ocidental e estava mais longe ainda da nossa ideia quando abordamos o tema.

Mas donde provém essa ideia de um Cristo coxo? Pode isso levar-nos a outras pistas para entendermos aquela pintura mural onde São Cristóvão se apresenta com cabeça de cão? Sim, sem dúvida, mas antes vamos abordar a primeira questão.

O Santo Sudário deve ter sido anteriormente conhecido como Mandylion, assim designado desde o século I e em posse do mundo Bizantino e como Sudário a partir do desaparecimento do Mandylion de Constantinopla em 1204 e já na posse da igreja ocidental em meados do séc. XIV. A resposta para o Cristo Coxo parece encontra-se precisamente nesta relíquia.

No Sudário, Nosso Senhor parece ter uma perna mais curta que a outra, à esquerda, que permaneceu encurvada na cruz por causa da sobreposição do pé esquerdo pregado sobre o direito, e assim ficou fixada mesmo depois da deposição da cruz devido à rigidez cadavérica. Desse pormenor nasceu a lenda do “Jesus claudicante” ou “Cristo Coxo” que influenciou a cruz ortodoxa: ela é feita com o supedâneo (apoio dos pés) inclinado, como se idealmente estivesse na cruz um homem com uma perna mais curta.

Muitos ícones de Nossa Senhora, especialmente os mais antigos e célebres, representam-na com o filho nos braços, com os pés fora das vestes, um normal e outro torto e mais curto. Mais ainda, outras vezes está com uma perna sobre a outra, com a planta do pé virada e aparecendo, sendo o outro pé visto sempre de perfil, como evidente alusão ao Sudário. O pé defeituoso lembra a forma e a posição do pé esquerdo no Sudário.

Poderia esta imagem de São Cristóvão no Convento de Cristo estar influenciada por essa ideia Bizantina? Pode essa pintura mural ser coeva do tempo de Gualdim Pais e refletir influências importadas pelo mesmo, visto este ter estado em contacto com essa cultura religiosa? Acredito que sim, mas ainda estamos longe da questão central: Porque está São Cristóvão representado como cinocéfalo?

Cinocéfalo (do grego kunoképhalos: "que tem cabeça ou face de cão") é na mitologia greco-romana um ser com corpo de homem e cabeça de cão. Esta forma é bastante comum nas inscrições do Antigo Egito e a mais conhecida talvez seja a de Anúbis, o Deus com cabeça de Chacal.

Contudo, e para que se possa entender o quanto pode constituir uma ideia errada a associação de Anúbis e o Santo, ou mesmo uma associação astronômica, temos que perceber o que a mentalidade da época pensava sobre os cinocéfalos, relegando para outras discussões o que podem as recentes teorias herméticas ver nessas criaturas.

Obrigatoriamente temos que, sucintamente, remeter para o imaginário europeu e as visões sobre os “Novos Mundos” e suas gentes, não se confinando a designação de novos mundos aos recentes territórios descobertos nos séculos XV e XVI, quando ocorreram as grandes viagens marítimas e que de igual forma deram origem a informações povoadas de mitos e superstições.

Essas informações míticas e supersticiosas pertenciam quase todas à tradição grega: Ctésias de Cnido em 398 antes de Cristo, já escrevia sobre a existência de raças fantásticas como os ciápodas que possuíam um único e grande pé, os homens peludos, sem cabeça, e que tinham os olhos nos ombros, etc.; Plínio, em 77 depois de Cristo, também escrevia sobre os monstros e maravilhas que foram avistadas na Índia, como seres antropófagos (que comiam carne humana), seres andróginos (que possuíam os dois sexos), etc.

E tais informações foram sendo adaptadas ao longo do tempo. Porém, em geral, mantiveram-se quase sem alterações até o século XVI. Dessa forma pode-se entender o fato de os navegadores europeus terem visto sereias, antípodas (criaturas com os pés virados para trás), cinocéfalos (criaturas com corpo humano e cabeça de cão que comiam carne humana), ciclopes (monstro caracterizado por ter um único olho no meio da testa), e outras tantas criaturas monstruosas e maravilhosas, quando viajaram por regiões desconhecidas. Atente-se que estas ideias aplicavam-se não somente a todos que viviam para lá do oceano, mas a todos aqueles que viviam à margem do mundo europeu.

"Alguns destes etíopes são mouros ou indianos/ outros habitam no deserto/ outros se alimentam de toda a espécie de serpentes/ e simulam mais uma linguagem do que propriamente consigam falar/ alguns não têm cabeça/ mas antes os olhos e a boca no peito". E prossegue o autor descrevendo cinocéfalos como gente que vive quatrocentos anos; na Etiópia existiriam pessoas com quatro-olhos e "No sul da Etiópia haveria gentes que tem um só pé, muito largo, mas que são tão rápidos que assim podem perseguir os animais selvagens; e, com os pés grandes, podem-se proteger otimamente do calor do sol".

A galeria de seres já conhecidos seria agora completada e confirmada com um dado das viagens dos Descobrimentos, por exemplo, no novo mundo "o rei de Portugal, através das suas navegações, descobriu gente rude com cabeça de cão e longas orelhas de burro; o corpo é de gente com braços e mãos, as ancas e as coxas como um cavalo; e ruminam como uma vaca". O fantástico e o real coexistiam numa dinâmica e surda subordinação; e levará o seu tempo até que a galeria de maravilhas seja determinantemente eliminada pela ciência empírica.

Portanto, pode agora o leitor perceber que o comum europeu via nos designados cinocéfalos somente personagens oriundas de regiões menos conhecidas, seja a América, sejam as Índias ou mesmo África.

E de que forma se relaciona a lenda de São Cristóvão com estas criaturas que habitavam zonas distantes do centro do mundo civilizado?

Pelo que conhecemos da sua lenda, São Cristóvão era natural do antigo reino de Canaã, sendo, por conseguinte um Cananeu. Os Cananeus eram os habitantes do reino antigo de Canaã, situado no Oriente Médio, correspondendo aproximadamente ao território de Israel nos dias de hoje.
Porém, a história do pé torto ou do Cristo coxo levou-nos a procurar São Cristóvão no seio da cultura Bizantina. Segundo a mais antiga lenda conhecida da literatura grega (bizantina) e latina, São Cristóvão não era oriundo de Canaã, mas sim, e surpreendentemente, membro da tribo norte africana de Marmaritae. Foi capturado por forças romanas durante a campanha do imperador Diocleciano contra os Marmaritae e foi transportado para prestar serviço numa guarnição romana perto de Antioquia, na Síria, batizado pelo bispo refugiado Pedro de Alexandria foi martirizado em 9 de Julho 308.

A lenda latina de São Cristóvão sofreu ao longo dos tempos uma tremenda evolução e logo em data muito precoce se distancia da lenda bizantina. É importante ressaltar que existem consideráveis diferenças de pormenor entre elas e a latina (católica) representa um ramo separado da evolução do texto original grego.

A identificação de São Cristóvão como um membro da tribo dos Marmaritae é vital para o correto entendimento de uma passagem que tem causado mais problemas do que a maioria, a descrição da terra natal do santo, presente em todos os relatos mais antigos que sobreviveram do seu martírio, tanto em grego e latim, segundo o qual ele veio de uma terra de canibais e de seres com cabeças em forma de cão.

A tradição grega chegou a interpretar essa passagem literalmente, e é por isso que muitas vezes o vemos representado em ícones bizantinos com uma cabeça de cão. Em tempos, é claro, isso levou a uma reação contra o São Cristóvão. A tradição latina no início da tradução do grego para o latim chegou a traduzir literalmente o termo grego original "cabeça de cão" (kunokephalos), usando a palavra canineus (cabeça de cão). Entretanto foi alterado para se ler "cananeu" (Cananeus), e daí contar a lenda latina que ele era de Canãa.

É importante neste momento ressaltar que a descrição de Cristóvão, a partir da terra dos cabeças de cão não tem absolutamente nada a ver com o culto egípcio da cabeça de chacal, Anúbis Deus. A explicação real é bem mais prosaica e remete-nos para o que anteriormente tínhamos descrito: os habitantes civilizados do mundo greco-romano há muito habituados a descrever aqueles que vivem à margem de seu mundo como seres fantásticos, canibais, cabeças de cão e pior.

Assim, quando o autor do original relata o martírio de São Cristóvão, descreveu a sua origem na terra dos canibais e cabeça de cães, o que significa apenas que ele veio da borda do mundo civilizado Não sabia ele que as gerações mais tarde viriam a interpretar mal esta metáfora cultural de uma forma completamente literal.

De que forma pode ter esta história sido refletida na Charola em Tomar, terra tão distante desse mundo? Como ressalta da história de São Cristóvão, foi este martirizado em Antioquia, tendo se iniciado nessa mesma região o culto ao Santo. Por sua vez, Gualdim Pais quando esteve no médio horizonte, rezam as crônicas, esteve precisamente em Antioquia. Fica esta junto à região de Edessa, local que também já referimos como estando ligada diretamente à história do Sudário, designado ai como Mandylion. Edessa, na Turquia, local também muito ligado a São Tomé.

Portanto, não será de todo despiciente encontrar a representação de São Cristóvão como cinocéfalo nesta pintura mural, não como Anúbis ou como uma alusão astronômica de Orion, Sírios ou constelação de Cão, como afirma alguma literatura, mas sim como representação de uma imagem com a qual deve ter estado Gualdim Pais em contacto na região de Antioquia.

Talvez não seja este ensaio mais que uma fantasia que toma como ponto de partida uma ilusão derivada do estado em que se encontra a dita pintura, todavia, começa esta história nos pés e acaba na cabeça, o que pode levar-me a concluir ser esta uma história com pés e cabeça.

Nota de rodapé: Apesar desta história fazer a exploração de uma ideia generalizada na literatura mistérica das últimas décadas, deve ser encarada com muita ponderação. Não é vista pelos críticos da arte como um São Cristovão com cabeça de canídeo, tão somente uma ilusão da deterioração da imagem em virtude da sua antiguidade. Repare-se que é uma pintura mural a qual está sujeita às vicissitudes inerentes a esse suporte. Não é difícil de encontrar semelhantes imagens onde podemos imaginar as mais bizarras representações.


Fonte: http://blog.thomar.org/2010/02/sao-cristovao-da-charola.html

Um comentário:

  1. Que beleza meu amigo. História é também literatura e, pelo que já li da sua pena, você dá show. Que texto bonito, interessante e agradável. Parabéns Adílio.

    Abraço do Ivani.

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