Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

A Química Atmosférica no Brasil de 1790 a 1853 - Parte II


Por: Adílio Jorge Marques e Carlos Lombardi

Publicado na Revista “Química Nova”, Vol. 33, nº 7, p. 1612-1619, 2010.



Freire Allemão foi acometido por uma dúvida, principalmente em virtude de a observação do fenômeno dos nevoeiros secos por Sanches Dorta ter ocorrido no mês de abril de 1784, e não no segundo semestre como ocorria em sua época. Discorrendo a seguir sobre o fato, ele supõe plausível a hipótese de Sanches Dorta: a de que em outros locais a névoa também surgia, tais como em Nova York, Orléans, Berlim, Sibéria, Calábria, Islândia. As névoas poderiam ser, em certos casos, decorrentes de vulcões ou fumaça oriunda de fendas no solo, principalmente após a incidência de terremotos como havia ocorrido na Europa entre o final do século XVIII e o primeiro terço do século XIX.
Contudo, a opinião final de Freire Allemão, centrando-se na cidade do Rio de Janeiro, foi atribuir o fenômeno às queimadas. Ele havia observado em 1816 no interior fluminense, estando próximo a queimadas, um resultado muito semelhante de avermelhamento do céu. Para Freire Allemão era o mesmo tipo de névoa que cobria o Rio de Janeiro na época da discussão na Sociedade Velosiana. Assim como acontecia na Holanda ou no norte da Alemanha com a queima de carvão, os nevoeiros secos tornavam o céu turvo, com uma faixa de cor rubra, tirando para o escuro. Ele afirma ainda que a sombra dos objetos terrestres torna-se imperfeita. A associação com o fenômeno naqueles países o convence de que essa era a melhor explicação para o caso.
Sessenta anos depois de Azeredo, na época da Sociedade Velosiana, a proposta de Freire Allemão seria a mais viável entre as que surgiram e serão aqui apresentadas. É importante ressaltar que Freire Allemão recorre em seu primeiro texto a observações ocorridas no final do século XVIII, contemporâneas, portanto, de Azeredo, para justificar sua atribuição das queimadas como causadoras dos nevoeiros secos.29
Frederico Leopoldo César Burlamaque (1803-1866), engenheiro e matemático, foi professor de matemática na Escola Central. Ele havia derrotado Alexandre Vandelli quando ambos concorreram ao cargo de diretor do Museu Nacional, em 1847. Burlamaque dirigiu o museu daquela data até 1866. Ele apresentou na Sociedade Vellosiana em 06 de outubro de 1851 outra proposta sobre o problema dos nevoeiros secos, intitulada Qual é a causa do enfumaçamento da atmosfera do Rio de Janeiro em certa época do ano? – Questão esta que se reduz à seguinte: - Qual é a causa dos nevoeiros secos?.31
A partir da argumentação de Freire Allemão, Burlamaque considerou o assunto tão difícil de resolver quanto o dos aerólitos, das estrelas cadentes, ou mesmo dos nevoeiros que cobrem os mares polares. Para ele, efeitos idênticos devem ter causas idênticas, ou seja, a causa deveria ser a mesma em todos os lugares do mundo (citados por Freire Allemão), mesmo respeitando as circunstâncias locais. Para Burlamaque, atribuir os nevoeiros secos às queimadas não poderia explicar todas as observações e a maneira como ocorriam, considerando ele a quantidade de queimadas insuficiente para provocar algo daquela magnitude. Se as causas fossem as queimadas, o fenômeno deveria incluir também uma nítida chuva de cinzas ou a presença de um forte cheiro de fumaça, e nenhum dos efeitos era observado no Rio de Janeiro.
Burlamaque percebe que a época de ocorrência dos nevoeiros era sempre próxima do equinócio de setembro, e coloca acertadamente a pergunta: Terá a mudança de estação alguma influência sobre o aparecimento deste fenômeno?.32 Esta é a resposta para ele, pois parece-lhe a mais plausível de todas. Para balizar sua proposição, cita Alexander von Humboldt (1769-1859), que atribui as névoas secas ao movimento de aproximação ou afastamento do sol em relação ao equador. A partir de uma informação do próprio Freire Allemão, de que ocorriam queimadas em regiões do Rio de Janeiro no verão e que nem por isso as névoas secas são vistas na cidade na ocasião, Burlamaque argumentou que se o fenômeno fosse devido apenas à queima vegetal ou mineral, haveria uma constante névoa densa e negra sobre as cidades. Isso, porém, não ocorria. Usa como exemplo Londres e a imensa quantidade de carvão queimada naquela cidade para aquecimento no inverno. Apesar da enorme quantidade de carvão usado para aquecimento e para mover as indústrias inglesas, a névoa local era normalmente branca e úmida, sendo conhecida na Grã-Bretanha desde seus primórdios. No entanto, aparentemente sem o conhecimento de Burlamaque, a partir do século XIX Londres passou a ser coberta pelo fog, uma densa névoa escura, que só desapareceu nos anos 1970, quando todo o carvão de aquecimento passou a ser tratado para eliminar o enxofre.
Seguindo em seu texto, acabou Burlamaque por citar outras hipóteses geralmente mencionadas por outros autores para o caso em estudo: vapores do calor central da Terra; a imersão da atmosfera na cauda de um cometa; fumo exalado das erupções vulcânicas; fumo de um corpo estranho que se teria queimado sem chama; pó impalpável produzido pelo fim de um planeta consumido por seu fogo central; ou ainda pelo encontro de um cometa. Propôs ainda que houvesse possíveis efeitos elétricos, os quais ele não explica.
Para o Diretor do Museu Nacional, contudo, muitas das causas mencionadas por seus pares mostravam-se pouco satisfatórias. O generalismo na ciência não fazia sentido para Burlamaque. Ele não acreditava em causas exógenas para o fenômeno:
atribuir a causas estranhas ao nosso globo a origem de certos fenômenos que nele se passam é recorrer a atos de imaginação, é forjar hipóteses mais ou menos plausíveis, que de ordinário não satisfazem ao espírito, ou não resistem a um frio exame.32
Explicações inerentes aos processos internos do planeta, como tremores ou vulcões, também não se mostravam viáveis. São fenômenos longínquos à realidade brasileira, além de muito grandiosos para provocar um efeito demasiado pequeno. Continua Burlamaque em sua argumentação:
se os nevoeiros secos de 1783 e 1834 podem ser atribuídos a causas estranhas ao nosso globo, eles deveriam ter sido muito mais gerais, e em muito maior escala do que realmente não foram, e portanto de nenhum modo podem servir para explicar fenômenos locais e muito parciais, particularmente os que periodicamente aparecem nos países intertropicais.33
Ao finalizar suas reflexões, Burlamaque mostra coerência em seus argumentos. Sua explicação é a mais correta entre os debatedores, feita inclusive a partir das observações daquele ano, quando as névoas foram particularmente intensas, tanto as secas quanto as úmidas. O fato de ter havido poucos ventos acabou por concentrar ainda mais os nevoeiros sobre a cidade, tornando a visão ainda mais difícil à distância. O efeito avermelhado do sol e da lua se mostrara inalterado nas ocasiões em que os astros foram vistos no horizonte. Lendo suas explicações verifica-se que ele tende a relacionar as névoas com a estação do ano no Rio de Janeiro, ou seja, com o inverno. Faltava a Burlamaque apenas conhecer a questão das inversões térmicas na atmosfera.
Em primeiro de outubro de 1852, Freire Allemão apresenta uma réplica à argumentação de Burlamaque na Sociedade Velosiana: Questão do nevoeiro, ou enfumaçado da atmosphera do Rio de Janeiro. (Replica).34 Diz que escreveu apressadamente suas propostas, e que as mesmas foram tomadas à frente pelo talento de Burlamaque. Insistiu Freire Allemão, apesar de seu consócio ter diferenciado as névoas secas das queimadas, que estas seriam as verdadeiras causas dos nevoeiros. Freire Allemão ressalta uma passagem na qual foi explicitada que a quantidade observada de fumo levantada em determinada explosão vulcânica foi suficiente para cobrir, na Europa, muitas vilas. E questiona o caso da Inglaterra citado por Burlamaque, já que deveriam ser levadas em consideração questões atmosféricas de cada cidade. Assim, o cheiro das queimadas poderia não ser percebido depois de alguma distância devido a vários fatores locais.
Reafirmando que a causa devia ser apenas a fumaça, termina sua réplica afirmando que eram comuns as queimadas também em outras províncias, como Minas Gerais, não descartando que também ocorresse no Rio de Janeiro a mistura da névoa seca com verdadeiro meteoro. Ou seja, não descartava a presença de fenômenos astronômicos na alteração atmosférica que se apresentava.
Contrariando os dois textos de Freire Allemão, assim como aquele de Burlamaque, todos apresentados na Sociedade Vellosiana, Alexandre Vandelli propôs, em seu manuscrito de 1853, que as névoas seriam relacionadas a fenômenos atmosféricos e astronômicos. Era uma explicação diferente, apesar de ainda em voga na época, de que era possível e constante a influência cósmica na atmosfera terrestre.28 No material de estudos astronômicos de D. Pedro II, por exemplo, depositado no Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, há um pequeno texto anotado em letra cursiva no qual o Imperador se ocupa em estudar os nevoeiros relacionados a material astronômico e de erupções próximas à Calábria no ano de 1783. Eles haviam sido registrados e investigados pelo naturalista alemão Johann Reinhold Forster (1729-1798).
Ao longo de seu trabalho Alexandre Vandelli atacou de forma virulenta seus dois debatedores, deixando claras as desavenças que ocorriam no interior da Sociedade Velosiana e que certamente contribuíram para o fim desta. O que possivelmente também contribuiu para as querelas entre Vandelli e os outros dois naturalistas envolvidos na questão dos nevoeiros secos, estes amigos entre si, foi a antiga disputa de Vandelli com Burlamaque pelo cargo de Diretor do Museu Nacional.35
            Alexandre Vandelli combateu tanto a argumentação de Francisco Freire Alemão como a de Frederico Leopoldo César Burlamaque, apresentadas na Sociedade Velosiana, a respeito do aparecimento de nevoeiros secos no Rio de Janeiro nos meses de inverno. Como descrito anteriormente, tanto Freire Alemão como Burlamaque concordavam que o fenômeno consistia num denso nevoeiro, ou enfumaçamento da atmosfera do Rio de Janeiro, e de quase toda, senão toda a costa do Brasil nos meses de julho a outubro.36 Frederico Burlamaque percebeu que o fenômeno ocorria em diferentes partes do globo, logo, sua explicação não deveria ater-se a um fenômeno local como as queimadas; o fenômeno poderia ser observado, às vezes, até em alto mar. Alexandre Vandelli discordará deste último ponto, dizendo que o fenômeno desaparece logo que nos afastamos da costa.
Burlamaque também não acreditava em causas exógenas para o fenômeno, não aceitando que os nevoeiros secos fossem um fenômeno extraterrestre, como viria a defender Vandelli. Este, que defendia a origem extraterrestre dos nevoeiros, chegou a escrever em tom de falsa modéstia e ironia: a velhice, ou decrepitude, com o seu horrível cortejo, e tanto pior, acompanhada com inumeráveis afecções morais, enfraquece, até totalmente extingue as faculdades mentais. Neste caso talvez eu já esteja, e será por esta razão que não dou a devida inteligência, compreendo mal o que refere o Sr. Dr. Burlamaque…O ensino antigamente embrutecia em vez de instruir; por isto, e pelas erradas doutrinas que me transmitiram, julgo de diferente modo, e compreendo mal.28
Para Vandelli, não obstante sua fraca e cansada inteligência, aqueles nevoeiros não se limitavam às regiões intertropicais, mas estendiam-se da costa da África por toda a Europa, de Portugal à Sibéria, da Suécia ao Sul da França. Chamou em seu favor argumentos semelhantes, como os do francês Marcel de Serres, que é citado frequentemente. Freire Alemão opunha-se a Burlamaque, porém de forma inadequada e errônea, segundo Vandelli. Para Freire Alemão seria conveniente começar a discussão examinando se os nevoeiros secos não seriam devidos a fumos de queimadas, opinando que é importante saber-se em que a névoa seca se distingue dos fumos.36 Esta simples sugestão provoca a ira de Vandelli, que comenta ironicamente: sinto que escapasse isto ao Sr. Dr. Freire. Não se sabe o que é fumo, o que é névoa, e propõe-se a questão? Não é preciso abrir dicionário algum de história natural para dar a definição; basta saber ver, e ter idéias exatas das coisas, que são tão comuns como estas de que se trata.28
Alexandre Vandelli contrapõe em seus argumentos que os nevoeiros secos duravam por vezes de 30 a 40 dias, o que não seria próprio dos fumos, que se dissipavam rapidamente. Cunhou a frase de efeito que todas as esperanças loucas ou malfundadas desvanecem-se, duram como o fumo. Argumentou ainda que o nevoeiro úmido fosse passageiro, durando apenas algumas horas, ou no máximo de um a dois dias.
Outra característica importante para Vandelli dizia respeito ao fato de os nevoeiros secos não tenderem a subir muito na atmosfera, como os nevoeiros úmidos ou os fumos, mas sim de ficarem adstritos às camadas inferiores da mesma. Esta se afigura hoje como uma arguta observação, tal como as de Burlamaque, a respeito de uma característica comum em nuvens de poluição, oriundas do fenômeno de inversão térmica.37

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma



Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

*Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.


A Química Atmosférica no Brasil de 1790 a 1853 - Parte I

Por: Adílio Jorge Marques e Carlos Lombardi

Publicado na Revista “Química Nova”, Vol. 33, nº 7, p. 1612-1619, 2010.

            Pouco se conhece a respeito de algumas investigações pioneiras da Química atmosférica levadas a cabo no Brasil desde o final do século XVIII. Como se trata de assunto tão presente nas cogitações dos cientistas dos tempos atuais, é importante saber que houve aqui estudiosos preocupados em pesquisar o tema em épocas mais distantes da História do Brasil. É surpreendente descobrir a existência de trabalhos, tanto experimentais como especulativos, sobre fenômenos atmosféricos numa sociedade ainda bastante acientífica. Todavia, mesmo com as deficiências que se possam apontar naqueles trabalhos, com a vantagem de estar no futuro, é preciso reconhecer essas contribuições como das primeiras no hemisfério ocidental e mesmo no mundo sobre o tema. O presente artigo trata, sobretudo, de duas abordagens completamente distintas no estudo da ciência atmosférica, uma ainda na era colonial, e a outra já em meados do período imperial.
            A Química do século XVIII foi dominada pelos estudos dos gases, suas propriedades e reações. Esta foi a chamada Química Pneumática, que culminou no trabalho de Lavoisier, dando uma explicação satisfatória para o antigo problema que desafiava a humanidade desde seus primórdios, que era entender o processo da combustão dos corpos. Foi o desenvolvimento da Química Pneumática que permitiu a Lavoisier estabelecer os princípios da Química Moderna, que nos acompanham até hoje. Entre estes princípios estão o entendimento de que o processo da combustão é uma reação dos corpos combustíveis com o oxigênio, que o ar não é uma substância elementar, mas sim uma mistura de gases, e que a água tampouco é elementar, mas um composto, o qual pode ser quebrado em seus constituintes, os gases hidrogênio e oxigênio, assim como estes podem ser recombinados para fazer a síntese da água. Para Lavoisier esses processos podiam e deviam ser investigados não só de forma qualitativa, mas também quantitativamente, estabelecendo relações precisas entre as quantidades dos reagentes e dos produtos nas reações químicas.
            Um marco decisivo na Química Pneumática foi a descoberta, em 1756, por Joseph Black (1728-1799), professor de Química e Medicina na Universidade de Edimburgo, do ar fixo, que conhecemos como dióxido de carbono. Black descobriu, ao investigar a magnesia alba, ou carbonato de magnésio, que ela efervescia ao ser posta em ácidos, e o ar liberado coincidia com aquele produzido nas fermentações levadas a cabo nas cervejarias. Ele mostrou de forma inequívoca que se tratava de um gás diferente do ar atmosférico e pela primeira vez ficou demonstrada a existência de um gás distinto do ar. O nome ar fixo foi cunhado por Black em virtude de aquele ar estar fixado num sólido, a magnesia alba, e poder ser liberado por uma ação química1. Com o decorrer do século XVIII vários outros gases foram descobertos: o ar inflamável, ou hidrogênio, por Henry Cavendish (1731-1810), em 1766; o ar mefítico, ou nitrogênio, de Daniel Rutherford (1749-1819), em 1772; e o ar do fogo, de Carl Wilhelm Scheele (1742-1786), em 1772, chamado em 1774 de ar desflogisticado por Joseph Priestley (1733-1804), e de ar vital, mais tarde oxigênio, por Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794), em 1776.1 Em suma, havia uma grande atividade em vários países europeus envolvendo o estudo dos gases.
            A partir de 1783 instalou-se na Europa a voga dos aeróstatos, ou balões, iniciada na França pelos irmãos Joseph (1740-1810) e Etienne Montgolfier (1745-1799), que construíram balões de ar quente que voaram a grandes distâncias com bastante êxito.3 Aos balões de ar quente se seguiram no mesmo ano os balões de  hidrogênio, de autoria de Jacques Alexandre César Charles (1746-1823) e Nicolas Louis Robert (1761-1828).1 A invenção dos balões de ar quente pelos Montgolfier era, de certa forma, uma reinvenção independente, uma vez que em 1709 o brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) já havia feito vários ensaios com pequenos balões deste tipo em Lisboa, na presença do Rei D. João V e sua corte, que incluía o Núncio Apostólico Michelangelo dei Conti, que descreveu o episódio minuciosamente em carta ainda existente nos Arquivos do Vaticano. Este mesmo Cardeal Conti viria a reinar como Papa, com o nome de Inocêncio XIII (1721-1724).2-4
            Logo após os vôos dos balões dos irmãos Montgolfier, em 1784, quatro alunos de Química do Professor Domingos Vandelli, na Universidade de Coimbra, lançaram-se à tarefa de também construir balões, tanto de ar quente como de hidrogênio. Entre estes alunos, José Álvares Maciel e Vicente Coelho de Seabra Silva Telles eram brasileiros.5 De acordo com a Gazeta de Lisboa, a máquina aerostática era um balão de ar quente de forma piramidal cônica, de 30 palmos de diâmetro e 45 de altura.6 Ela subiu aos ares em duas ocasiões, em 25 e 27 de junho de 1784. Esta última data coincide com o nascimento do filho de Domingos Vandelli, Alexandre, do qual este relato se ocupará mais adiante.
Assim relata a Gazeta uma das ascensões: esta máquina se achava prestes no laboratório químico da Universidade para ser lançada aos ares a 15 de Junho; mas, querendo os autores dela, que são Tomás José de Miranda e Almeida, alferes do regimento de cavalaria de Elvas, José Álvares Maciel, Salvador Caetano de Carvalho e Vicente Coelho de Seabra, todos aplicados às ciências naturais, autorizar esta experiência (que lhes fora encarregada no princípio do ano letivo próximo passado pelo seu mestre, o doutor Domingos Vandelli) com a assistência do Excelentíssimo Reitor da Universidade, por esta razão se demorou até o referido tempo. E efetivamente no dia 27 assistiram à experiência o dito Excelentíssimo Reitor com todo o corpo acadêmico, nobreza e povo, por quem os autores dela foram geralmente aplaudidos.6
Vários outros experimentos semelhantes foram executados pelos entusiasmados alunos do Prof. Vandelli em outras ocasiões, tanto com balões de ar quente como de hidrogênio, como relata seguidamente a Gazeta de Lisboa. Aliás, a empolgação com os novos gases por pouco não leva a desastres irreparáveis. Por ocasião do casamento do Infante D. João, futuro D. João VI, mandou o Reitor que os alunos de Química fizessem uma iluminação espetacular de todo o pátio interno da Universidade de Coimbra com bicos de metal por onde ardiam chamas de hidrogênio. Pouco depois, para celebrar um aniversário Real, noticia a Gazeta uma proeza ainda mais temerária, que se fez em Coimbra em 1785: além da iluminação do costume se formou no terreiro da Universidade, defronte do Palácio, uma gruta, em que estava uma fonte perene de fogo, que ardeu das 7 até as 2 horas; eram mais de 150 chamas contínuas, todas com diversas direções; na parte superior se via uma águia lançando fogo pelo bico e pontas das asas, e na parte mais inferior duas grandes tulipas. A todos causou grande gosto e admiração o ver umas bocas dos tubos lançando as chamas para cima, a modo de repuxo, outras para baixo, por forma de cascata, as mais para um e outro lado: obra devida à invenção do sábio Doutor Vandelli.7
Considerando a enorme quantidade de hidrogênio queimado por 7 horas, foi um milagre que a Universidade tivesse saído ilesa de um experimento que seguramente nenhum químico de hoje ousaria empreender. 
Na segunda metade do século XVIII fundaram-se no Rio de Janeiro, sob a égide de Vice-Reis sucessivos, o Marquês do Lavradio (1769-1778) e D. Luís de Vasconcelos e Sousa (1778-1790), duas associações que tinham por finalidade o cultivo e a disseminação das ciências, emulando as academias que proliferavam na Europa. Foram elas, respectivamente, a Academia Científica, que existiu de 1772 a 1778, e a Sociedade Literária do Rio de Janeiro, de 1786 a 1794. Infelizmente as duas associações tiveram existência fugaz e não alcançaram o papel que pretendiam de propulsoras do desenvolvimento científico. Todavia, elas foram bastante interessantes ao retratar por suas discussões e publicações a forma como vinham até o Brasil as cogitações científicas que agitavam o velho continente, e como reagiam a esses progressos os brasileiros que tinham acesso ao conhecimento. Só se tratará aqui da Sociedade Literária do Rio de Janeiro. Esta teve a honra de ganhar a dedicatória de um importante livro, os Elementos de Chimica,8 publicado em Coimbra em duas partes, em 1788 e 1790, por Vicente Coelho de Seabra Silva Telles, brasileiro de Congonhas do Campo, Capitania de Minas Gerais. O livro deveria servir, como se lê em seu frontispício, para ser usado no curso de Química que, aparentemente, a Sociedade pretendia estabelecer. Infelizmente, este curso jamais se materializou. Todavia, durante algum tempo a Sociedade funcionou de forma mais ou menos regular, reunindo-se uma noite por semana, em reuniões em que os sócios liam comunicações diversas, que eram então discutidas pelos demais, assim como numa sociedade científica moderna. O sócio João Manso Pereira viria a descrever uma dessas sessões em seu livro Memoria sobre uma nova Construcção do Alambique,9-10 publicado em 1805. O livro é uma tradução muito comentada de uma obra do francês Abbé Rosier, com a indicação no subtítulo de ter sido traduzido pelo P. J. P de A., que provavelmente significa Professor José Pinto de Azeredo. Em uma longa nota de rodapé nas páginas 35-36, João Manso também descreve vários experimentos com gases feitos na Sociedade pelo Dr. José Pinto de Azeredo, agora com o nome dado por extenso. O Dr. Azeredo era um médico carioca que havia estudado na Universidade de Edimburgo, onde fora aluno de Joseph Black, o descobridor do dióxido de carbono. O título de Professor se devia a que o Dr. Azeredo havia sido nomeado professor da Escola de Medicina recém-fundada em Angola, para onde ele se dirigiria pouco depois. Ademais, os médicos costumavam ser chamados de professores.
Azeredo é uma dessas figuras quase esquecidas pela História. Ele mereceu, contudo, um alentado estudo recentemente, que trata de estabelecer seu papel na História da Ciência e da Medicina Luso-Brasileira da segunda metade do século XVIII ao início do século XIX. Este estudo tem grande importância ao mostrá-lo como a primeira pessoa no mundo lusófono, e certamente um dos primeiros em qualquer parte, a investigar a Química da atmosfera com uma preocupação nitidamente ambiental, tornando-o claramente interessante para nosso mundo contemporâneo.11
José Pinto de Azeredo nasceu no Rio de Janeiro, provavelmente em 1763 ou 1766. Ele fez seus estudos preparatórios com o professor e poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga, o futuro condutor da Sociedade Literária do Rio de Janeiro e autor de seus estatutos. Ele e seu irmão mais novo Francisco Joaquim de Azeredo se matriculam na Faculdade de Medicina da Universidade de Edimburgo em 1786. Na capital da Escócia, entre outros escritos, José redige uma memória sobre os efeitos do ar fixo sobre o sistema nervoso.
Ele logrou ganhar em 1788 um prêmio atribuído todo ano ao melhor trabalho dos finalistas do curso de Medicina pela Harveian Society of Edinburgh.11 Com isto, foi também nomeado por um ano para presidir a Medical Society of Edinburgh.11 A partir de Edimburgo os irmãos foram para Leiden, a fim de ultimar seus doutorados naquela universidade holandesa de tão grande prestígio na Medicina. José defendeu sua tese em 24 de maio de 1788, apresentando uma dissertação sobre a gota.
Após o retorno a Portugal, José Pinto de Azeredo foi nomeado pela Rainha D. Maria I físico-mor de Luanda, Angola. Lá ele ainda teria como tarefa instalar e dirigir a recém-criada Escola de Medicina de Luanda, e que efetivamente se materializou. Seu trabalho em Luanda duraria até 1797, quando retornou a Portugal, onde viria a falecer em 1810, em Lisboa. Antes de ir para Angola, contudo, Azeredo passou cerca de um ano no Brasil, de 1789 a 1790, num aprendizado de doenças tropicais na Bahia, no Rio de Janeiro e em Pernambuco. Foi nesse período que ele participou das reuniões da Sociedade Literária a que João Manso Pereira se refere.
Em março de 1790, Azeredo publicou no Jornal Enciclopédico de Lisboa, periódico voltado para as ciências e dirigido pelo médico, farmacêutico e químico Manoel Joaquim Henriques de Paiva, um longo artigo de 30 páginas intitulado Exame quimico da atmosphera do Rio de Janeiro, Feito por Jozé Pinto de Azevedo (sic), doutor em Medicina pela Universidade de Leide, Fisico mór, e Professor de Medicina do Reino de Angola, etc.12
Ao introduzir o assunto, Azeredo descreve sucintamente o papel de vários filósofos naturais no progresso da ciência química no século XVIII, sem, contudo, incluir Lavoisier, que só mais tarde aparece em outros trechos do artigo. Entre aqueles citados por seu papel nos estudos da atmosfera estão os suecos Bergman e Scheele, o escocês Black, os ingleses Priestley e Cavendish, o holandês Ingenhousz e o francês Macquer. Veja-se o que ele diz: Estes filósofos entraram a examinar mais profundamente a nossa atmosfera; acharam que além dos vapores e partículas heterogêneas contém um fluido elástico, que em todos os tempos, e em todos os lugares é composto de três substâncias mui diferentes entre si. Estas substâncias separadas produzem diversos efeitos sobre os corpos organizados. Uma parte, que lhe chamaremos ar puro (a) é própria e necessária para a respiração e para o fogo. A segunda, que chamaremos ar fixo (b), sufoca aos animais, a destrói toda a irritabilidade (sic). A terceira, que chamaremos ar mofete (c), é de uma natureza inteiramente desconhecida. É sim imprópria para a respiração e combustão, destrói a vida dos animais; porém não precipita a cal, nem é absorvido pela água.13
Logo a seguir ele contrasta a química flogística pré-lavoisiana com a explicação dada pelo químico francês ao descrever a combustão como uma reação com o oxigênio: Mr. Lavoisier, examinando o fenômeno mui atentamente explicou de um modo mais filosófico.14 Ao dar razão à interpretação de Lavoisier do papel do oxigênio nas oxidações, acrescenta: Concedendo nós este fato de Mr. Lavoisier, acho fácil dar a razão porque unindo nós o ar nitroso (óxido nítrico, NO) com o ar puro, fique toda a composição de uma cor vermelha, e seja logo absorvida pela água. Esta, provada, tem o mesmo gosto que o ácido nitroso (ácido nítrico) diluído. Por cuja razão é o ar nitroso o melhor meio que temos para conhecer a pureza do ar; e dele é que me servi nas experiências seguintes.15
A seguir vem uma extensa descrição dos experimentos levados a cabo no Rio de Janeiro para determinar a pureza do ar em diferentes sítios da cidade:
Experiência 1ª
Em um tubo de vidro dividido em partes iguais introduzi tanto ar da Prainha quanto enchesse 16 partes: depois introduzi no mesmo tubo uma porção de ar nitroso igual a uma parte. Toda a composição se fez vermelha, e a água subiu uma parte. Introduzi segunda porção; o efeito foi o mesmo: introduzi terceira, a mudança de cor apenas se percebeu, e a água subiu três partes, e ½ da quarta.15
O experimento de Azeredo consistia em reagir o óxido nítrico incolor (chamado por ele de ar nitroso) com o oxigênio contido no ar, produzindo o gás vermelho-acastanhado dióxido de nitrogênio, o qual reage com a água dando ácido nítrico (em sua nomenclatura, ácido nitroso, como se lê em outros trechos), o que faz desaparecer a cor. À medida que mais óxido nítrico ia sendo introduzido, menos intensa era a reação, uma vez que o teor de oxigênio no ar do tubo diminuía. Ele repetiu este procedimento em sítios distintos da cidade: Prainha, São Francisco de Paula, Misericórdia, Passeio Público e seus arredores até a Glória, e os Morros de São Bento, do Colégio (Morro do Castelo), da Conceição e de Santo Antônio.  
De seus experimentos conclui Azeredo que uma porção de ar da nossa atmosfera, dividida em 16 partes, contém 3/16 + 1/2 de ar puro; o que vem a ser menos do que o que é comumente na Europa, que segundo as experiências de Bergman e Mr. Lavoisier, o ar puro sempre chega a ¼ de uma porção dada.16
Aqui é necessário fazer uma interpretação de seus dados. O que ele quer dizer provavelmente é que o teor de oxigênio no ar é de 3/16 mais metade de 1/16, ou seja, 21,9%. Seu valor está então muito mais próximo do valor real de cerca de 21% que aquele que ele cita como sendo o dos químicos europeus.
É bastante curioso assinalar que ele consegue resultados tão bons usando em parte uma Química lavoisiana, mas que, em termos de teoria, ainda claudica entre esta e a velha Química do flogisto, tão duramente combatida por Lavoisier, como denodadamente defendida por Priestley. Assim, ao discorrer sobre a parte boa do ar, ou seja, o oxigênio, diz ele: Esta mesma porção é tão necessária aos homens e animais quanto é a mesma respiração. Porque como os nossos bofes lançam continuamente muita quantia de flogisto, era necessário que houvesse uma substância que, combinando-se com ele, separasse uma matéria nociva. O ar puro que é o único que tem atração por flogisto, em tocando os nossos bofes se converte imediatamente em ar fixo, como vemos evidentemente se respirarmos por um tubo dentro d’água de cal.17
Azeredo conclui que o melhor local da cidade em termos da pureza do ar, ou seja, do teor de oxigênio, é o Passeio Público, o jardim recém-inaugurado pelo Vice-Rei D. Luís de Vasconcelos. A ele se seguem os ares dos vários morros da cidade. A pior qualidade de ar está na Misericórdia, e ele dá a razão: Pode ser que os vapores corruptos do hospital imediato, e dos quarteis sejam a causa desta diminuiçào do ar puro.18
Após a determinação do teor de oxigênio ele passa a estudar a participação do dióxido de carbono na atmosfera do Rio de Janeiro. A maneira de determinar o teor de dióxido de carbono no ar consistia em adicionar água de cal (solução diluída de hidróxido de cálcio) ao ar contido num tubo, e verificar a subida do nível da solução após a absorção do gás carbônico e consequente precipitação de carbonato de cálcio.  Segundo suas determinações, o ar do centro da cidade tinha o maior teor de gás carbônico. Todavia, ele concluiu que o percentual desse gás na atmosfera do Rio, sempre abaixo de 1/16 do total, era bem inferior àquele encontrado geralmente na Europa: podemos concluir que a quantidade de ar fixo na nossa atmosfera é menor que na Europa, que nunca é menos de 1/16. Os contínuos fogos nos climas do Norte, durante o inverno, fazem grande parte do ar puro converter-se em fixo. As contínuas neves sobre os campos, a decadência das folhas das árvores, a falta da impressão da luz sobre os vegetais proíbe que estes absorvam o ar impuro e lancem o ar deflogístico (oxigênio). Estas razões eram bastantes para que houvesse maior quantidade de ar fixo nesses climas que nos nossos.19
O trabalho de Azeredo é de uma grande atualidade nestes tempos de preocupação ambiental, não apenas pelo assunto em si como por total pioneirismo e originalidade na área demonstrada por ele. Certamente ele foi o primeiro a determinar experimentalmente as características químicas do ar de qualquer localidade no hemisfério ocidental, mas também aparece como um dos primeiros em todo o mundo a pôr a Química a serviço da determinação da qualidade do ar respirado pela população de uma cidade.
A química atmosférica era de grande atualidade no início do século XIX, e sua importância foi demonstrada de forma espetacular logo nos primeiros anos do século.
Uma investigação de grande consequência para os estudos da atmosfera e para toda a ciência foi levada a cabo em 1804 pelo químico francês Louis-Joseph Gay-Lussac (1778-1850). Ele fez duas ascensões em balão naquele ano. A primeira foi realizada no dia 24 de agosto, em companhia do físico Jean-Baptiste Biot (1774-1862). Os dois fizeram vários experimentos físicos, mas Gay-Lussac desejava muito mais; desta maneira, pouco mais de um mês depois da primeira ascensão, em 16 de setembro, ele empreendeu um segundo voo, desta vez sozinho, que atingiu 7016 metros acima do nível do mar, marca que só seria superada em 1850, ano de sua morte.20 Entre os vários experimentos conduzidos, de Física, Química e Fisiologia, ele estava particularmente interessado em elucidar uma dúvida que atormentava muitos químicos da época: uma vez que os gases constituintes da atmosfera terrestre têm pesos diferentes, não haveria uma concentração maior dos gases mais pesados nas camadas inferiores, de modo que a composição da atmosfera variasse com a altitude, assim como varia a pressão total? Gay Lussac fez a ascensão munido de dois tubos evacuados que foram abertos acima de 6000 metros de altitude e em seguida fechados. Após a descida, ele analisou o teor de oxigênio nas duas amostras de ar e verificou que ele coincidia com o teor observado na superfície.20 A determinação experimental da constância da composição da atmosfera teve consequências importantíssimas, pois permitiu a John Dalton validar com segurança sua Lei das Pressões Parciais, a qual foi fundamental para a elaboração de sua Teoria Atômica poucos anos depois, em 1807.21  
No Brasil se travaria um importante debate sobre a Química atmosférica na década de 1850. Ao contrário do que sucedia à época de José Pinto de Azeredo, porém, desta vez a questão não seria baseada em resultados experimentais, mas em argumentação puramente dialética, em virtude da complexidade do assunto, de que seus protagonistas não suspeitavam.
Em meados do século, estava claro para os intelectuais da elite política que o país deveria depender cada vez menos da mão de obra escrava. A pressão econômica da Inglaterra, aliada ao desenvolvimento rápido e vigoroso da ciência e das técnicas na Europa, motivavam o pensamento de uma modernidade também intelectual e científica. Nesse espírito nasce a Sociedade Vellosiana de Ciências Naturais do Rio de Janeiro, da qual Alexandre Antonio Vandelli (1784-1862), filho do velho professor de Química e História Natural de Coimbra, Domingos Agostinho Vandelli (1735-1816), foi um dos sócios fundadores. A vida e a obra do segundo Vandelli já foram relatados num artigo em Química Nova.22 No presente trabalho será discutido apenas seu papel pontual no debate apresentado mais adiante. A Sociedade Vellosiana foi criada oficialmente em 17 de setembro de 1850 com a finalidade, segundo o artigo 1° de seus Estatutos, de indagar, coligir e estudar todos os objetos pertencentes à História Natural do Brasil; e juntamente averiguar e interpretar as palavras indígenas com que forem designados.23
A partir dessa premissa estatutária, oriunda da necessidade de uma modernização científica do país, Alexandre Vandelli, o botânico Francisco Freire Allemão de Cysneiros (1797-1874) e outros fundadores desejaram incentivar a pesquisa de temas científicos eminentemente nacionais. O nome da instituição, sugerido por Freire Allemão, foi uma homenagem ao naturalista Frei José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811). Autor da importante obra de botânica Flora Fluminensis, que expõe o resultado de suas investigações científicas realizadas na Província do Rio de Janeiro durante oito anos, Frei Veloso foi motivo de inspiração para os naturalistas de sua época. É importante ressaltar neste momento histórico o nome de Freire Allemão. Personagem de escol na ciência brasileira, filho de um lavrador, tornou-se médico de D. Pedro II e professor de Zoologia. Estudou na Academia de Medicina da Universidade de Coimbra, local onde obteve o diploma de cirurgião. Defendeu sua tese na França em 1828, onde se graduou Doutor em Medicina. Voltou para o Brasil em 1832 e no ano seguinte obteve a cátedra de Botânica e Geologia da Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Foi o pioneiro na avaliação do grave problema do bócio endêmico no Brasil, observando populações de Minas Gerais. Membro do Instituto Histórico e Geográfico, autor de dezenas de publicações e pranchas sobre plantas brasileiras, descreveu várias plantas ainda desconhecidas.24
Freire Allemão integraria a Comissão Científica que fez a exploração do Ceará, sendo o presidente e chefe da seção botânica da Comissão (1859-1861), proposta pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Composta de naturalistas e engenheiros, ela tinha o objetivo de explorar cientificamente as províncias do norte e nordeste do país. Esta Comissão, que ficou conhecida depreciativamente como Comissão das Borboletas, deixaria o Rio de Janeiro em janeiro de 1859, percorrendo as províncias do Ceará, Piauí, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No Ceará seriam colhidas 20.000 amostras de plantas, e muitas delas, assim como instrumentos e outros materiais, foram incorporados ao acervo do Museu Nacional no Rio de Janeiro.24
Em 1866 ele seria nomeado Diretor do Museu Nacional, sucedendo a Frederico Burlamaque e ocupando o cargo até 1870. Em 1866, presidiria a comissão destinada ao estudo e classificação de vegetais para o pavilhão brasileiro na Exposição Universal, a realizar-se em Paris no ano seguinte. A fitografia, a histologia e a fisiologia vegetal foram, por mais de meio século, objetos de seus estudos e descobertas, principalmente sobre as espécies vegetais do Brasil que eram geralmente enviados à Europa. Ele também foi um desenhista de alta qualidade, como o atestam seus esboços e pranchas. Freire Allemão descreveu inúmeras plantas novas, muitas das quais ainda conservam o nome que ele lhes deu, e nomeou numerosos gêneros, como visto nas Atas da Sociedade Vellosiana.24
Retornando à Sociedade Vellosiana, no início de seu funcionamento os sócios efetivos foram distribuídos em quatro seções, sendo estas consideradas permanentes: Etnografia, Zoologia, Botânica, Geologia e Ciências Físicas.25 Alexandre Vandelli chegou a exercer a Presidência ad hoc da Sociedade em 1850, assinando o diploma de Freire Allemão, apesar de em pouco tempo estarem em lados opostos nas discussões científicas.26
A Sociedade passou por muitos problemas ao longo de sua história, com inúmeras dissensões internas e ressentindo-se da falta de participação e apoio do Imperador D. Pedro II. O Imperador foi assíduo freqüentador de reuniões intelectuais e científicas, como as do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, nunca prestigiando, porém, os encontros da Sociedade Velosiana. As divergências internas resultaram no adormecimento contínuo e gradual da instituição. Apesar de o fim das atividades normalmente ser apontado como o ano de 1852, os registros das Atas do Arquivo do Museu Nacional e do Almanak Laemmert mencionam reuniões esporádicas até 1857, seguindo-se posteriormente atas de outros encontros até pelo menos 1871.29
Alexandre Vandelli é o autor de um documento de enorme interesse e importância que retrata bem os debates ocorridos nas reuniões da Sociedade Velosiana. Este longo documento nunca foi publicado, encontrando-se em forma manuscrita no Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis. Ele se intitula Reflexão sobre a questão dos nevoeiros seccos da atmosfera do Rio de Janeiro. Apresentada na Sociedade Vellosiana, pelo Snr. Dr. Francisco Freire Allemão.28 Neste manuscrito Vandelli procura rebater as propostas de Francisco Freire Allemão de Cysneiros (principalmente) e de Frederico Leopoldo César Burlamaque a respeito da origem dos nevoeiros secos que costumavam cobrir o Rio de Janeiro, sobretudo entre agosto e setembro. O manuscrito foi presenteado por Vandelli a D. Pedro II, e compõe-se de três partes, datadas de 16 de abril, 24 de novembro e 10 de dezembro de 1853, respectivamente. São ao todo 41 páginas manuscritas em letra uniforme e legível, muito diferente da grafia original de Alexandre Vandelli. A terceira parte é intitulada Aditamento, tendo sido composta após a carta de dedicação ao Imperador.29 A carta de leitura difícil de Alexandre Vandelli a D. Pedro II já mostra o espírito da querela entre os debatedores, ou ao menos o espírito crítico de sua parte:
Senhor.
A questão dos Nevoeiros seccos da extincta Sociedade Velosiana, que V.M.I. estou certo, não deixou passar desapercebida, não deixa pelo menos de incutir curiosidade. Não podendo pubblicar as Reflexões, tenho a honra de offerecer a V.M.I. a inclusa copia, esperando que V.M.I. se digne aceitar; e ficarei muito satisfeito do meu insignificante trabalho, se merecer por hum momento a Sua Augusta attenção: em cujo caso farei apromptar a copia da sua continuação.
Neste insignificante trabalho, só me pertence a especificação(?) do phenomeno, o que, comtudo, os outros não fizerão: e só transcrevo os aucthores  (ilegível) em que me fundo, porque as sciencias da observação, e exactas são diferentes da poezia, e não admittem como esta divagações e fantasias para encher com palavras a escassez de assumpto ou materia.
Beija a Augusta Mão de V.M.I. com todo o respeito e submissão,

Rio de Janeiro 13 de Nov. de 1853

O revte e obmo subdito
Alexandre Antonio Vandelli29

A querela de Vandelli com seus consócios iniciou-se quando Freire Allemão colocou o tema em debate na Sociedade Vellosiana em 25 de setembro de 1851. Ocorreu através das Questões propostas para serem discutidas por escripto. Textualmente, as questões foram:
1º - O denso nevoeiro, ou o enfumaçado da atmosfera do Rio de Janeiro, e de quase toda, senão toda a costa do Brasil nos meses de julho a outubro será devido a uma evaporação terrestre, ou vulcânica, como pensou Sanches Dorta? Ou será devido a queimadas como se acredita vulgarmente?
2º - Se este fenômeno é devido às queimadas, datará ele de tempo anterior à conquista?
3º - Se é anterior às conquistas; seriam estas queimadas puramente acidentais, como pensam alguns, ou eram de proposito feitas pelos selvagens, como sustentam outros? E então por que motivo o fariam?
4º - Provada e existência dos incêndios nos tempos dos selvagens, casuais, ou não, foram eles (os incêndios) que produziram os maçagais, ou campos, pela destruição das matas, como é opinião de Volney e outras pessoas; ou pelo contrário os incêndios pressupõem a existência de campos naturais?31
Atualmente sabe-se que a passagem da luz solar (ou lunar) pela atmosfera carregada de grãos (que podem ser oriundos das queimadas ou mesmo da poluição das grandes cidades) provoca o avermelhamento da luminosidade celeste. É um fenômeno comum, sobretudo no inverno e próximo da linha de visada do horizonte. No caso do Brasil ocorrem principalmente nos meses de inverno (exatamente a época observada por Freire Allemão), quando as camadas da atmosfera próximas ao solo estão mais frias e, portanto, mais densas. Tal propriedade é reforçada pela menor convecção atmosférica nos meses mais frios.29
Fisicamente o que ocorre é que a luz branca solar sofre espalhamento elástico na atmosfera terrestre, espalhando preferencialmente a luz azul de maior frequência (menor comprimento de onda) ao interagir com os gases que a compõem. Por isso o céu terrestre é azul.30 Os grãos de poeira em suspensão espalham a luz visível em forma de luz com menor frequência (apresentando comprimentos de onda maiores, isto é, do amarelo ao vermelho). O horizonte ou partes do céu ficam com uma coloração avermelhada. Este é um dos componentes da chamada névoa seca dos meteorologistas.
Após as quatro questões, Freire Allemão busca explicar sua hipótese. A primeira autoridade na qual Freire Allemão se apoia são as observações do astrônomo português Bento Sanches Dorta (1739-1795), realizadas entre os anos de 1781 e 1788. Dorta realizara no Rio de Janeiro muitas observações da altura do Sol e de eclipses dos satélites de Júpiter com o fim de determinar as coordenadas geográficas da cidade, e percebera a existência das névoas em 1784. As observações de Sanches Dorta são o prelúdio da cultura astronômica na cidade, muito antes do Imperial Observatório Astronômico fundado por D. Pedro I em 1827. As observações de Sanches Dorta foram publicadas nos tomos I e III das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (1797 e 1812).

O LABIRINTO E A BUSCA INTERIOR

Por: Adílio Jorge Marques


            Um dos conhecimentos da Tradição mais importantes e que foram incorporados por nossa cultura abrange o estudo do simbolismo dos Labirintos e sua utilização na vida psicológica e mística. O Labirinto e sua função psicológica são de conhecimento não só dos Iniciados de todas as épocas quanto do povo, em especial na Europa, que respeitava e conhecia algumas das finalidades daquelas construções e representações simbólicas até o advento do cristianismo. Com a Nova cristã muitos desses antigos costumes e conhecimentos foram propositadamente abandonados ou deixados de lado pela nova explicação espiritual.  
            A existência de “canais ou veias telúricas”, por onde flui a energia da Mãe-Terra, era também de conhecimento dos povos antigos, como hoje de algumas Organizações que buscam um conhecimento interno. Encontramos vestígios de tais “canais” em todas as partes do mundo, principalmente onde hoje é a Grã Bretanha e a França.
Além dos marcos conhecidos de tais pontos telúricos (os dolmens, menires, entre outros), temos os quase esquecidos Labirintos de pedra, desenhados nos lugares ditos anteriormente pagãos (locais onde, por cima, muitas Catedrais foram construídas).  Vemos no interior de muitas Catedrais como, por exemplo, em Chartres, desenhos de Labirintos, como a nos relembrar constantemente os “antigos tempos” da Tradição Primordial. Os Labirintos seguiam muitas vezes os canais de energia telúrica do solo, dando, assim, forma ao seu complexo de passagens e corredores. Os Labirintos são encontrados também em outros lugares ou templos. Acredita-se que continham funções de interiorização, e até mesmo exotéricas.
Quanto à sua origem precisa, pode ser ainda mais difícil se predizer, pois até no Antigo Egito foram encontrados vestígios de Labirintos. Na Grécia fazia parte da cultura e da mitologia de seu povo, indicando obstáculos a serem superados para que se conseguisse alcançar determinado objetivo. Várias passagens mitológicas mostram isso, como o fio de Ariadne e o mitológico Minotauro. Na Holanda a lenda de São Jorge é atribuída pelos antigos a este conhecimento das linhas telúricas benfazejas, pois se dizia que sua lança era a representação de um menir. As forças da terra representariam o dragão e o Santo era o homem Iniciado nos mistérios, detentor do conhecimento, que dominava assim as energias da Natureza e as suas energias internas.
            Um exemplo importante de labirinto Iniciático na Europa é o da Catedral de Chartres, na França. Segundo Luis Pellegrini, na obra Os pés alados de Mercúrio (Editora Axis Mundi),

O labirinto de Chartres é até hoje perfeitamente visível com suas pedras escuras encastradas no pavimento de pedras claras. Mas, infelizmente, mesmo esse labirinto não está completo. No seu centro havia, segundo testemunhos históricos, uma grande placa de cobre com a imagem, em relevo, do combate mitológico entre o herói Teseu e o Minotauro. Esta placa foi provavelmente removida em 1792, época da Revolução Francesa, e usada para a fabricação de canhões.
Mesmo os estudiosos católicos concordam hoje que o labirinto de Chartres, bem como os que existiam em outras catedrais francesas, é uma herança do labirinto antigo, um símbolo muito importante do pensamento filosófico e religioso do paganismo.

            O Labirinto também simboliza as dificuldades da Iniciação daquele que a requer. É o símbolo do lento progresso de seu pensamento, de suas provas, de seu retorno a si mesmo, ao seu interior, a fim de encontrar o que chamaríamos de “o bom caminho”. Ou o verdadeiro caminho da Alma. No início de sua jornada o candidato desconhece a trilha a ser seguida, e o medo o envolve. Muitas vezes o candidato deve retornar a um determinado ponto para poder seguir adiante. Isso mostra os revezes da vida, assim como as suas voltas indicam o retorno a partir de novas bases, mais sãs e mais seguras, após períodos de aprofundadas reflexões. São aspectos do que é necessário ao requerente à Iniciação na qual aparece o Labirinto.
            Neste sentido, os Labirintos desenhados nas Catedrais, sob uma forma curta e simbólica, nos indicam da mesma maneira uma representação de todas as nossas dificuldades do caminho. Podem ser provas físicas, ou não. Ou mesmo os perigos reais da vida.
            Os Labirintos deixaram para a eternidade o fato de que seu simbolismo continua atual até os dias de hoje, e assim permanecerá para os Iniciados do amanhã.

O DESPERTAR - A verdadeira união com Deus

Por: Kadu Santoro.



Como dizia um velho mestre Zen: “se não despertarmos, seremos como fantasmas agarrados a sementes”. Diante desta afirmação, percebemos que dependendo da forma que nos apresentamos, seja como figuras imponentes, vestidas com este ou aquele traje, podemos ser capazes de fazer comentários a respeito de qualquer tipo de escrituras ou doutrinas, seja ela cristã, budista, hindu etc., podemos ter suportado todas as formas de austeridade e provações, ter visitado vários tipos de mestres e sábios, estar supostamente iluminado, realizado em todos os sentidos, porém, não passamos de meros buracos negros camuflados.
O despertar é a mais sublime e profunda experiência que um ser humano pode ter. Esse processo começa pelo conhecimento de si próprio, como “alguém no mundo”. O despertar é a realização da nossa humanidade, ele significa que a nossa busca espiritual não é uma tarefa que apenas as pessoas dotadas podem atingir. Ao contrário, as pessoas que para o mundo são consideradas altamente espiritualizadas, geralmente são tão ligadas às suas próprias convicções, dogmas e crenças que são como moscas presas numa teia.
Todos nós temos o potencial inato para experimentar o despertar. Cada um de nós, desde o início, é inteiro e completo (Imago Dei), e tem tudo o que é necessário para perceber isso, habita em nós uma centelha divina, que precisa ser despertada, porém, o caminho do despertar não é fácil, exige um grande esforço e determinação interior para poder alcançá-lo.
É necessário nos desnudarmos completamente, devemos nos livrar de todo o ranço colocado em nós através da sociedade, das religiões e seus dogmas. Devemos começar a olhar a vida de forma mais contemplativa e seguirmos as intuições que nos vem através da nossa expansão de consciência. A grande “queda do homem” narrada na Bíblia, nada mais é do que o afastamento do homem da essência primordial e da natureza de Deus. Através da experiência do despertar, passaremos a viver uma vida plena e restaurada em comunhão com o criador.
Busque a cada dia despertar, e viva a verdadeira união com Deus.

“O SR. PITÁGORAS E AS BOLAS DE GUDE”: O FAMOSO TEOREMA NO ENSINO DA FÍSICA

Por: Adílio Jorge Marques e Cláudio E. Silva


RESUMO

O título sugere um conto de Monteiro Lobato. Este artigo visa demonstrar experimentalmente o famoso teorema atribuído a Pitágoras, mostrando-o de forma bastante sugestiva a professores e estudantes que lidam com a interdisciplinaridade entre a Física e a Matemática, em especial a Geometria. É uma aplicação especialmente para as Ciências e suas habilidades.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais propostos pelo MEC orientam os profissionais à uma educação comprometida com a cidadania, além de praticidade e eficiência na transmissão do conhecimento. Desta forma, apesar dos currículos escolares possuírem uma flexibilidade que lhes permitem desenvolver e contextualizar temas de acordo com as suas realidades locais e regionais, os temas sugeridos nos Parâmetros devem servir de eixo norteador no Brasil, a fim de que toda a rede de ensino possa participar ativamente da discussão desses temas considerados de grande urgência social.

Pensando em diminuir a complexidade que alguns assuntos proporcionam, tanto no conceito quanto para alguns alunos em associá-los à sua realidade, tomamos o caminho sugerido pelos documentos acima mencionados no que diz respeito a exploração da criatividade do professor em sala para a exposição de suas aulas, sem contudo perder de vista o lado conceitual na elaboração dos conteúdos. Com isso, procuramos aqui aliar ambas as faces deste Projeto de reformulação do nosso ensino, ou seja, associando o rigor conceitual à criatividade na elaboração de suas aulas teórico/práticas, unindo o saber tradicional à sua própria realidade, à sua própria cultura.

Palavras-Chave: Teorema de Pitágoras; interdisciplinaridade; ensino de Física.


1. INTRODUÇÃO

O teorema de Pitágoras é, sem dúvida, um dos mais famosos da Matemática, particularmente da Geometria. É muito comum, contudo, fazermos uso deste teorema em outras disciplinas, como na Física, por exemplo. É certo também que da mesma forma que este teorema é muito enunciado, ao mesmo tempo é pouco compreendido por parte dos nossos alunos, que não conseguem perceber o porque do “quadrado da hipotenusa ser igual a soma do quadrado dos catetos”.

O “Sr. Pitágoras e as bolas de gude” é uma maneira simples, criativa e eficiente de abordar o assunto fazendo uso de materiais de baixo custo ou até mesmo a custo zero. Acima de tudo, visamos aqui torná-lo claro, elucidativo e de fácil manuseio. Inicialmente proporemos aquela que consideramos a forma mais simples de demonstrar o teorema. Mostraremos em seguida outra forma alternativa. Passamos a descrever, a seguir, um conjunto de materiais que podem ser empregados na construção simples do nosso esquema usado para a demonstração do teorema de Pitágoras.
1.1. Materiais Sugeridos

a) Uma chapa de isopor de (40X50X2)cm
b) Cola branca
c) Bolas de gude de tamanho aproximadamente igual (várias)
d) Cartolina branca

1.2. Esquema de Montagem I

Primeiramente traçamos um triângulo retângulo sobre a cartolina branca. Por questões didáticas, devemos iniciar traçando triângulos cujos lados tenham como medida valores inteiros, pois isto facilita o trabalho. Por exemplo, triângulos cujos catetos e hipotenusa meçam respectivamente: 3 cm, 4 cm e 5 cm; 6 cm, 8 cm e 10 cm; 9 cm, 12 cm e 15 cm, e assim sucessivamente.

Usando como exemplo a segunda opção, ou seja, o triângulo cujos lados sejão de C = 6 cm, B = 8 cm e A = 10 cm, traçamos com lápis ou caneta sobre a cartolina a referida figura. Em seguida, desenha-se um quadrado sobre cada um dos lados do triângulo. Deste modo, teremos um quadrado traçado cujo lado é igual ao lado da hipotenusa em centímetros, e classificaremos como sendo o quadrado de área A. O mesmo faremos para cada um dos lados dos catetos, ou seja, traçamos sobre cada um destes os quadrados cujos áreas serão classificadas como B e C.

Lado A = Hipotenusa = 10 cm
Lado B = Cateto adjacente = 8 cm
Lado C = Cateto oposto = 6 cm
D = triângulo retângulo

Recortamos em cartolina cada uma das figuras (pode ser com uma tesoura ou com um estilete), de modo a conseguirmos um molde de cada uma delas. Reproduzimos em seguida as figuras no isopor.

Com o uso de um estilete vaza-se o isopor, criando um fundo em cada quadrado, seguindo as linhas traçadas no isopor. Ficamos assim com um triângulo retângulo e as três partes recortadas referentes aos quadrados construídos sobre cada lado do triângulo. Colamos com cartolina na parte inferior de cada quadrado de modo a formar um fundo.

Finalmente, depositamos as bolas de gude dentro das cavidades formadas pelas áreas dos respectivos quadrados. Depositamos inicialmente sobre cada um dos quadrados dos catetos. Em seguida, removemos as mesmas bolas e depositamos todas sobre o quadrado da hipotenusa.


2. VERIFICAÇÃO DA MONTAGEM I

Levando em conta que a área dos quadrados estão associadas com o número de bolas de gude depositadas em cada quadrado, constatamos que a soma das áreas dos catetos é igual a área do quadrado da hipotenusa, ou seja, a soma total do número de bolas de gude dos quadrados de cada cateto é igual ao total de bolas depositadas sobre o quadrado da hipotenusa. Isto demonstra o teorema de Pitágoras de modo simples e ilustrativo.

Podemos considerar outros esquemas para demonstrar o mesmo teorema com o uso ou proposta de outros materiais. Vamos considerar aqui um esquema alternativo.

2.1. Materiais Sugeridos

a) Uma placa de madeira ou compensado com aproximadamente (40x20)cm de área.
b) 30 pregos pequenos
c) 2m de arame fino
d) Régua comum
e) Lápis comum
f) Martelo
g) Bolas de gude de tamanhos aproximados


2.2. Esquema de Montagem II ou Forma Alternativa

Como na primeira montagem, primeiramente traçamos um triângulo retângulo. Por questões didáticas, devemos iniciar traçando triângulos cujos lados tenham como medida valores inteiros, por exemplo, triângulos cujos catetos e hipotenusa meçam respectivamente: 3 cm, 4 cm e 5 cm; 6 cm, 8 cm e 10 cm; ou 9 cm, 12 cm e 15 cm, e assim sucessivamente.

Usando como exemplo a segunda opção, ou seja, o triângulo cujos lados são 6 cm, 8 cm e 10 cm, traçamos com o lápis sobre a madeira este mesmo triângulo. Em seguida, formamos um quadrado sobre cada um dos lados do triângulo. Deste modo, teremos um quadrado traçado cujo lado é o lado da hipotenusa, e classificaremos este como sendo o quadrado de área A. O mesmo acontecerá para cada um dos lados dos catetos, que serão classificados como tendo áreas B e C.

Tomando-se dos pregos, fixamos um em cada vértice do conjunto formado pelos quadrados e triângulo, de modo que teremos um total de 12 pregos afixados no total.

Partindo de um dos vértices, enrolamos o arame no prego daquele vértice e o esticamos continuamente passando por um dos outros vértices, até que completemos a trajetória.

Temos assim nossa montagem II concluída.


3. VERIFICAÇÃO DA MONTAGEM II

Idêntica a do Esquema I: com o conjunto formado pelo triângulo retângulo central e os três quadrados com suas respectivas áreas A, B e C, todos cercados pelo arame, preenchemos cada um dos quadrados dos catetos com as bolas de gude de modo a ficarem totalmente ocupados, sem sobrar espaço para bolas de gude. Após, retiramos as bolas e as colocamos na área correspondente à hipotenusa, onde verificamos que a quantidade (soma) de bolas de gude dos catetos encaixa-se perfeitamente na área da hipotenusa.


4. CONSTATAÇÃO TEÓRICA AOS ALUNOS

O enunciado do teorema de Pitágoras nos diz que: “O quadrado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados dos catetos”. Em outras palavras, o quadrado construído sobre o lado da hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os lados dos catetos, como mostra a equação 1.

Podemos verificar esta afirmativa da seguinte forma: contando as bolas de gude colocadas no quadrado A, verifica-se que estas equivalem a soma das bolas de gude colocadas nos outros dois quadrados. Sendo o total das bolas de cada quadrado equivalente às suas áreas, fica mais claro para os alunos que a área do quadrado formado pelo lado da hipotenusa é igual a soma das áreas formadas pelos lados dos catetos.

Deste modo, demonstramos de forma prática, divertida e visualmente ilustrativa, o tão famoso teorema de Pitágoras:

Hipotenusa ao quadrado é igual à soma dos quadrados dos catetos.


5. REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, 1999.

OSTERMANN, F., MOREIRA, M. A. Atualização do currículo de Física na escola de nível médio: um estudo desta problemática na perspectiva de uma experiência em sala de aula e da formação inicial de professores. Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, v. 18, n. 2, 2001, p. 135-149.

PERRENOUD, P. Construir as Competências desde a Escola. Trad. de Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

RICARDO, E. C. As Ciências no Ensino Médio e os Parâmetros Curriculares Nacionais: da proposta à prática. Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação. Rio de Janeiro, v. 10, n. 35, 2002, p. 141-160.

RICARDO, E. C.; ZYLBERSZTAJN, A. O ensino das ciências no Nível Médio: um estudo sobre as dificuldades na implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 19, n. 3, 2002, p. 351-370.
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