Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

A Química Atmosférica no Brasil de 1790 a 1853 - Parte II


Por: Adílio Jorge Marques e Carlos Lombardi

Publicado na Revista “Química Nova”, Vol. 33, nº 7, p. 1612-1619, 2010.



Freire Allemão foi acometido por uma dúvida, principalmente em virtude de a observação do fenômeno dos nevoeiros secos por Sanches Dorta ter ocorrido no mês de abril de 1784, e não no segundo semestre como ocorria em sua época. Discorrendo a seguir sobre o fato, ele supõe plausível a hipótese de Sanches Dorta: a de que em outros locais a névoa também surgia, tais como em Nova York, Orléans, Berlim, Sibéria, Calábria, Islândia. As névoas poderiam ser, em certos casos, decorrentes de vulcões ou fumaça oriunda de fendas no solo, principalmente após a incidência de terremotos como havia ocorrido na Europa entre o final do século XVIII e o primeiro terço do século XIX.
Contudo, a opinião final de Freire Allemão, centrando-se na cidade do Rio de Janeiro, foi atribuir o fenômeno às queimadas. Ele havia observado em 1816 no interior fluminense, estando próximo a queimadas, um resultado muito semelhante de avermelhamento do céu. Para Freire Allemão era o mesmo tipo de névoa que cobria o Rio de Janeiro na época da discussão na Sociedade Velosiana. Assim como acontecia na Holanda ou no norte da Alemanha com a queima de carvão, os nevoeiros secos tornavam o céu turvo, com uma faixa de cor rubra, tirando para o escuro. Ele afirma ainda que a sombra dos objetos terrestres torna-se imperfeita. A associação com o fenômeno naqueles países o convence de que essa era a melhor explicação para o caso.
Sessenta anos depois de Azeredo, na época da Sociedade Velosiana, a proposta de Freire Allemão seria a mais viável entre as que surgiram e serão aqui apresentadas. É importante ressaltar que Freire Allemão recorre em seu primeiro texto a observações ocorridas no final do século XVIII, contemporâneas, portanto, de Azeredo, para justificar sua atribuição das queimadas como causadoras dos nevoeiros secos.29
Frederico Leopoldo César Burlamaque (1803-1866), engenheiro e matemático, foi professor de matemática na Escola Central. Ele havia derrotado Alexandre Vandelli quando ambos concorreram ao cargo de diretor do Museu Nacional, em 1847. Burlamaque dirigiu o museu daquela data até 1866. Ele apresentou na Sociedade Vellosiana em 06 de outubro de 1851 outra proposta sobre o problema dos nevoeiros secos, intitulada Qual é a causa do enfumaçamento da atmosfera do Rio de Janeiro em certa época do ano? – Questão esta que se reduz à seguinte: - Qual é a causa dos nevoeiros secos?.31
A partir da argumentação de Freire Allemão, Burlamaque considerou o assunto tão difícil de resolver quanto o dos aerólitos, das estrelas cadentes, ou mesmo dos nevoeiros que cobrem os mares polares. Para ele, efeitos idênticos devem ter causas idênticas, ou seja, a causa deveria ser a mesma em todos os lugares do mundo (citados por Freire Allemão), mesmo respeitando as circunstâncias locais. Para Burlamaque, atribuir os nevoeiros secos às queimadas não poderia explicar todas as observações e a maneira como ocorriam, considerando ele a quantidade de queimadas insuficiente para provocar algo daquela magnitude. Se as causas fossem as queimadas, o fenômeno deveria incluir também uma nítida chuva de cinzas ou a presença de um forte cheiro de fumaça, e nenhum dos efeitos era observado no Rio de Janeiro.
Burlamaque percebe que a época de ocorrência dos nevoeiros era sempre próxima do equinócio de setembro, e coloca acertadamente a pergunta: Terá a mudança de estação alguma influência sobre o aparecimento deste fenômeno?.32 Esta é a resposta para ele, pois parece-lhe a mais plausível de todas. Para balizar sua proposição, cita Alexander von Humboldt (1769-1859), que atribui as névoas secas ao movimento de aproximação ou afastamento do sol em relação ao equador. A partir de uma informação do próprio Freire Allemão, de que ocorriam queimadas em regiões do Rio de Janeiro no verão e que nem por isso as névoas secas são vistas na cidade na ocasião, Burlamaque argumentou que se o fenômeno fosse devido apenas à queima vegetal ou mineral, haveria uma constante névoa densa e negra sobre as cidades. Isso, porém, não ocorria. Usa como exemplo Londres e a imensa quantidade de carvão queimada naquela cidade para aquecimento no inverno. Apesar da enorme quantidade de carvão usado para aquecimento e para mover as indústrias inglesas, a névoa local era normalmente branca e úmida, sendo conhecida na Grã-Bretanha desde seus primórdios. No entanto, aparentemente sem o conhecimento de Burlamaque, a partir do século XIX Londres passou a ser coberta pelo fog, uma densa névoa escura, que só desapareceu nos anos 1970, quando todo o carvão de aquecimento passou a ser tratado para eliminar o enxofre.
Seguindo em seu texto, acabou Burlamaque por citar outras hipóteses geralmente mencionadas por outros autores para o caso em estudo: vapores do calor central da Terra; a imersão da atmosfera na cauda de um cometa; fumo exalado das erupções vulcânicas; fumo de um corpo estranho que se teria queimado sem chama; pó impalpável produzido pelo fim de um planeta consumido por seu fogo central; ou ainda pelo encontro de um cometa. Propôs ainda que houvesse possíveis efeitos elétricos, os quais ele não explica.
Para o Diretor do Museu Nacional, contudo, muitas das causas mencionadas por seus pares mostravam-se pouco satisfatórias. O generalismo na ciência não fazia sentido para Burlamaque. Ele não acreditava em causas exógenas para o fenômeno:
atribuir a causas estranhas ao nosso globo a origem de certos fenômenos que nele se passam é recorrer a atos de imaginação, é forjar hipóteses mais ou menos plausíveis, que de ordinário não satisfazem ao espírito, ou não resistem a um frio exame.32
Explicações inerentes aos processos internos do planeta, como tremores ou vulcões, também não se mostravam viáveis. São fenômenos longínquos à realidade brasileira, além de muito grandiosos para provocar um efeito demasiado pequeno. Continua Burlamaque em sua argumentação:
se os nevoeiros secos de 1783 e 1834 podem ser atribuídos a causas estranhas ao nosso globo, eles deveriam ter sido muito mais gerais, e em muito maior escala do que realmente não foram, e portanto de nenhum modo podem servir para explicar fenômenos locais e muito parciais, particularmente os que periodicamente aparecem nos países intertropicais.33
Ao finalizar suas reflexões, Burlamaque mostra coerência em seus argumentos. Sua explicação é a mais correta entre os debatedores, feita inclusive a partir das observações daquele ano, quando as névoas foram particularmente intensas, tanto as secas quanto as úmidas. O fato de ter havido poucos ventos acabou por concentrar ainda mais os nevoeiros sobre a cidade, tornando a visão ainda mais difícil à distância. O efeito avermelhado do sol e da lua se mostrara inalterado nas ocasiões em que os astros foram vistos no horizonte. Lendo suas explicações verifica-se que ele tende a relacionar as névoas com a estação do ano no Rio de Janeiro, ou seja, com o inverno. Faltava a Burlamaque apenas conhecer a questão das inversões térmicas na atmosfera.
Em primeiro de outubro de 1852, Freire Allemão apresenta uma réplica à argumentação de Burlamaque na Sociedade Velosiana: Questão do nevoeiro, ou enfumaçado da atmosphera do Rio de Janeiro. (Replica).34 Diz que escreveu apressadamente suas propostas, e que as mesmas foram tomadas à frente pelo talento de Burlamaque. Insistiu Freire Allemão, apesar de seu consócio ter diferenciado as névoas secas das queimadas, que estas seriam as verdadeiras causas dos nevoeiros. Freire Allemão ressalta uma passagem na qual foi explicitada que a quantidade observada de fumo levantada em determinada explosão vulcânica foi suficiente para cobrir, na Europa, muitas vilas. E questiona o caso da Inglaterra citado por Burlamaque, já que deveriam ser levadas em consideração questões atmosféricas de cada cidade. Assim, o cheiro das queimadas poderia não ser percebido depois de alguma distância devido a vários fatores locais.
Reafirmando que a causa devia ser apenas a fumaça, termina sua réplica afirmando que eram comuns as queimadas também em outras províncias, como Minas Gerais, não descartando que também ocorresse no Rio de Janeiro a mistura da névoa seca com verdadeiro meteoro. Ou seja, não descartava a presença de fenômenos astronômicos na alteração atmosférica que se apresentava.
Contrariando os dois textos de Freire Allemão, assim como aquele de Burlamaque, todos apresentados na Sociedade Vellosiana, Alexandre Vandelli propôs, em seu manuscrito de 1853, que as névoas seriam relacionadas a fenômenos atmosféricos e astronômicos. Era uma explicação diferente, apesar de ainda em voga na época, de que era possível e constante a influência cósmica na atmosfera terrestre.28 No material de estudos astronômicos de D. Pedro II, por exemplo, depositado no Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, há um pequeno texto anotado em letra cursiva no qual o Imperador se ocupa em estudar os nevoeiros relacionados a material astronômico e de erupções próximas à Calábria no ano de 1783. Eles haviam sido registrados e investigados pelo naturalista alemão Johann Reinhold Forster (1729-1798).
Ao longo de seu trabalho Alexandre Vandelli atacou de forma virulenta seus dois debatedores, deixando claras as desavenças que ocorriam no interior da Sociedade Velosiana e que certamente contribuíram para o fim desta. O que possivelmente também contribuiu para as querelas entre Vandelli e os outros dois naturalistas envolvidos na questão dos nevoeiros secos, estes amigos entre si, foi a antiga disputa de Vandelli com Burlamaque pelo cargo de Diretor do Museu Nacional.35
            Alexandre Vandelli combateu tanto a argumentação de Francisco Freire Alemão como a de Frederico Leopoldo César Burlamaque, apresentadas na Sociedade Velosiana, a respeito do aparecimento de nevoeiros secos no Rio de Janeiro nos meses de inverno. Como descrito anteriormente, tanto Freire Alemão como Burlamaque concordavam que o fenômeno consistia num denso nevoeiro, ou enfumaçamento da atmosfera do Rio de Janeiro, e de quase toda, senão toda a costa do Brasil nos meses de julho a outubro.36 Frederico Burlamaque percebeu que o fenômeno ocorria em diferentes partes do globo, logo, sua explicação não deveria ater-se a um fenômeno local como as queimadas; o fenômeno poderia ser observado, às vezes, até em alto mar. Alexandre Vandelli discordará deste último ponto, dizendo que o fenômeno desaparece logo que nos afastamos da costa.
Burlamaque também não acreditava em causas exógenas para o fenômeno, não aceitando que os nevoeiros secos fossem um fenômeno extraterrestre, como viria a defender Vandelli. Este, que defendia a origem extraterrestre dos nevoeiros, chegou a escrever em tom de falsa modéstia e ironia: a velhice, ou decrepitude, com o seu horrível cortejo, e tanto pior, acompanhada com inumeráveis afecções morais, enfraquece, até totalmente extingue as faculdades mentais. Neste caso talvez eu já esteja, e será por esta razão que não dou a devida inteligência, compreendo mal o que refere o Sr. Dr. Burlamaque…O ensino antigamente embrutecia em vez de instruir; por isto, e pelas erradas doutrinas que me transmitiram, julgo de diferente modo, e compreendo mal.28
Para Vandelli, não obstante sua fraca e cansada inteligência, aqueles nevoeiros não se limitavam às regiões intertropicais, mas estendiam-se da costa da África por toda a Europa, de Portugal à Sibéria, da Suécia ao Sul da França. Chamou em seu favor argumentos semelhantes, como os do francês Marcel de Serres, que é citado frequentemente. Freire Alemão opunha-se a Burlamaque, porém de forma inadequada e errônea, segundo Vandelli. Para Freire Alemão seria conveniente começar a discussão examinando se os nevoeiros secos não seriam devidos a fumos de queimadas, opinando que é importante saber-se em que a névoa seca se distingue dos fumos.36 Esta simples sugestão provoca a ira de Vandelli, que comenta ironicamente: sinto que escapasse isto ao Sr. Dr. Freire. Não se sabe o que é fumo, o que é névoa, e propõe-se a questão? Não é preciso abrir dicionário algum de história natural para dar a definição; basta saber ver, e ter idéias exatas das coisas, que são tão comuns como estas de que se trata.28
Alexandre Vandelli contrapõe em seus argumentos que os nevoeiros secos duravam por vezes de 30 a 40 dias, o que não seria próprio dos fumos, que se dissipavam rapidamente. Cunhou a frase de efeito que todas as esperanças loucas ou malfundadas desvanecem-se, duram como o fumo. Argumentou ainda que o nevoeiro úmido fosse passageiro, durando apenas algumas horas, ou no máximo de um a dois dias.
Outra característica importante para Vandelli dizia respeito ao fato de os nevoeiros secos não tenderem a subir muito na atmosfera, como os nevoeiros úmidos ou os fumos, mas sim de ficarem adstritos às camadas inferiores da mesma. Esta se afigura hoje como uma arguta observação, tal como as de Burlamaque, a respeito de uma característica comum em nuvens de poluição, oriundas do fenômeno de inversão térmica.37

2 comentários:

  1. Sou Flamenguista, mas por pura questão de opção.

    Sou de Campo Grande e da Associação Cultural da Zona Oeste, em cujos projetos encontra-se a criação do Museu de Campo Grande. Por falta absluta de verbas, ptamos pelo tipo "eco-museu", no Rio da Prata, C. Gde.,onde era o ponto final da linha de bonde Rio da Prata. O ideal seria um bonde original para exibição na praça. Em substituição, contatamo osartesões Getúlio Domado e seu filho Vitor, que construirão réolica artesanal que ficará exposto naquela praça. Como Freire Alemão morava em C. Grande, temos interesse em possuir todasas suas obras. Em livros, escritos e outros. Indago de você pode nos judar, indicando obras locais para a obteção delas. Tel (21) 2415.4464 e 9285.5704.
    Muito obrigado.

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  2. Caro Gil,

    Não conheço obras locais à venda sobre este grande personagem. Apenas livros e artigos sobre ele em bibliotecas, mas que ficam retidos, locais onde pesquisei para este e outros trabalhos. Além de colocar o nome dele no google e ver os textos que surgem, indico, comercialmente, o meu livro "O professor do jovem Imperador" http://www.vieiralent.com.br/vandelli/, no qual discorro sobre o Alexandre Vandelli e falo do Allemão. No meu livro constam todas as referências que achei interessantes sobre estes e outros personagens. VOcê pode, com a lista, tentar conseguir a que interessar mais.

    Abraços, e bom final de ano. Espero que algum dia você leia sobre a história social dos clubes do RJ... Talvez mude a sua "pura questão de opção" de ser flamenguista...rs.

    Adílio

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