Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br

O que é etnocentrismo?

Por Adílio Jorge Marques

Para o famoso antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), etnocentrismo seria a recusa em “admitir o próprio fato da diversidade cultural”. Temos aí um tema que nunca saiu da pauta acadêmica e, hoje, está inconscientemente presente nas discussões jornalísticas.

Assim, etnocentrismo seria a tendência do pensamento, especialmente ocidental, de considerar as categorias, normas e valores da nossa própria sociedade, ou cultura, como parâmetro passível de ser aplicado a todas as demais. Atitude que, hoje reconhecemos, atribui juízo de valor meramente pessoal, ou mesmo de determinadas “autoridades”, atrelando uma “metodologia sociológica” para a diferença entre as culturas. Será que alguém já fez isso algum dia na vida?

O papel do cientista social, ou dos que trabalham com a cultura, não é dizer como “deve ser” uma sociedade, mas como “ela é” (oposição entre “dever ser” versus “ser”). A busca do entendimento do por que algo aconteceu, sem impor a sua opinião, lembrando que a diversidade também é demonstradora de uma cultura. Privilegiar um referencial teórico-prático que segue o padrão da racionalidade, escolhendo um único tipo de cultura e educação com ele compatíveis, cria o conceito de “cultura hegemônica” e “culturas subalternas”. Esta é uma atitude combatida atualmente. As culturas diferentes da nossa, ou com orientações incompatíveis com o referencial escolhido, eram até o estabelecimento da Antropologia e da Sociologia alvos de uma redução das suas especificidades e diferenças.

O (também) etnólogo Lévi-Strauss criticou o “falso evolucionismo” racionalista como a tentativa de suprimir a variedade cultural. A diversidade, inerente ao nosso mundo, evidencia que o pensamento etnocêntrico não reconhece a variedade de culturas como importante para compreendermos as nossas origens, de onde viemos e para onde vamos. Para Strauss, as culturas ocidentais “olham” para as outras com o olhar atual, do hoje, criando um anacronismo na formação de opinião. Reconhecer isso prova que não há uma “raça superior” a outra, apenas diferenças simbólicas.

Antes de Strauss, os academicistas classificavam as sociedades tribais como “bárbaras”, principalmente as ágrafas, ou “sociedades frias”. Só valia como prova da “evolução cultural” a escrita de um povo, a existência de documentos que marcassem a diacronia histórica. Era uma espécie de medida do “progresso e da tecnologia” daquela cultura que estava sendo estudada. Até os sistemas políticos estudados deveriam ser próximos do que era estruturado mentalmente pela sociedade ocidental. Havia uma linha de progresso, como espécie de “medidor das sociedades”, apesar das grandes diferenças que existiam entre elas. A humanidade deveria tornar-se una e idêntica em si mesma com o passar do tempo. A diversidade não passaria de etapas em um único desenvolvimento geral.

O estudante, em qualquer grau, mantendo o perfil sociológico moderno, deve ter em mente que o etnocentrismo deve ser evitado enquanto atitude metodológica. Estamos em uma sociedade global, diversificada, múltipla: “Há muito mais culturas humanas do que raças humanas” explicita Lévi-Strauss no seu texto “Raça e História” (Cap. XVIII, Raça e História. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.). A diversidade não deve ser a observação fragmentada de cada um de nós. Ela existe em função das relações que une os grupos, muito mais do que o isolamento destes. Ainda Strauss: “não existem povos infantes: todos são adultos, mesmo os que não mantiveram um diário de sua infância e adolescência”.

A afirmação simplista, de uma suposta “igualdade natural” para todos, pode levar a equívocos, pois não é possível colocar de lado a diversidade que existe, de fato, entre as culturas. Isso exterminaria a diversidade que tanto nos atrai, ou seja, a beleza que há na diferença, no novo que desejamos conhecer.

O homem se realiza em culturas tradicionais e diversas. E as modificações se explicam em função de situações definidas no tempo e no espaço que temos que buscar entender, sem preconceitos.

4 comentários:

  1. Belo artigo, tiveste um bom começo, continua.
    Boa sorte!

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  2. Caro Adílio,

    muito pertinente seu texto no momento em que a França vota a proibição da burca e outros símbolos do islamismo em seu território. Não é um bom exemplo de etnocentrismo da terra de Lévi-Strauss? Como ele se pronunciaria neste caso?
    Grande abraço,
    Caruso

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  3. Caro amigo Jorge

    Parabéns pelo Blog!
    Boa sorte e sucesso!

    Grande abraço
    Darly

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  4. Oi Adílio: gostei muito do seu texto. Esse tema é sempre muito interessante e atual. Apoio a tese de que o etnocentrismo de ontem e de hoje é na verdade nossa justificativa ideológica para segregação. O historiador mexicano Edmundo O´Gorman ao falar sobre a “invenção da América” pela Europa sinaliza que a conquista do Novo Mundo não somente alimentou os cofres reais devastados pelas guerras como também esquentou os debates sobre cultura e diversidade. Constatou-se, de forma surpreendente, por exemplo, que o centralismo institucional europeu, isto é, monárquico, não era uma característica indispensável em toda organização social. Contudo, foi necessário criar o mito do “bom” e o “mau selvagem”. Esse último era, essencialmente, o “canibal”, qualidade que os conquistadores costumavam atribuir a todo indígena que a eles resistissem. Segundo O´Gorman, a antropofagia dos indígenas - suposta ou não – foi uma justificativa ideológica importante da conquista e colonização da América. Nos dias de hoje, podemos colecionar justificativas segregadoras, autorizadas ou não. São frequentes as teses que pretendem distanciar negros e brancos, pobres e ricos... Obrigada pelo Blog. Abraços, Flávia.

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