Cavaleiro

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Os créditos da ilustração são de André Marques - www.andre.art.br
Aspectos do amor platônico na obra “O Banquete”

Por: Adílio Jorge Marques


“O Banquete” (em grego antigo Συμπόσιον, Sympósion) é um diálogo platônico escrito por volta de 380 A.E.C.. Constitui-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor enquanto Eros. Este texto é, juntamente com “Fedro”, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. Em um trecho do Sympósion, encontro entre conhecidos, surge Erixímaco com uma crítica a Heráclito (187ª). O discurso de Erixímaco explicita os contrários na existência humana, dizendo: “Ora, é grande absurdo dizer que uma harmonia está discordando ou resulta do que ainda está discordando” (Platão. O Banquete. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991, p. 120). Assertiva que está em contraposição a Heráclito, para o qual o um é diferenciado de si mesmo, mas unindo-se a si próprio e revelando o processo da vida. Para Heráclito, a discordância de si mesmo leva paradoxalmente à concordância. Heraclitianamente, a simultaneidade de duas ações contrárias é sempre posta em relação contínua.

Erixímaco critica a proposta heraclitiana da harmonia “ser desarmônica”, ou que se constitua de opostos, pois que a harmonia se formaria apenas de altos e baixos, como na unidade musical. Na verdade, para muitos filósofos e pensadores, tal afirmação não irá opor-se ao que Heráclito escreveu, pois na harmonia também faz parte a diferença. Para Heráclito o que há é o princípio de que a virtude está sempre na justa medida de tudo, e quanto ao excesso, não há entre opostos harmônicos, com o que não concorda Erixímaco. Para este há um Eros sadio que traz a harmonia, a concórdia e o equilíbrio; há ainda o Eros insano, que é não necessariamente vulgar, mas que em tudo se opõe ao bom Eros. O primeiro é o responsável pela saúde e pela música: a conciliação entre os diferentes humores do corpo e entre os diferentes sons. O segundo Eros é o do excesso e do desequilíbrio, o responsável pela doença e pela cacofonia. Conhecedor dos dois amores e seus efeitos, a tarefa de Erixímaco na obra “O Banquete”, como médico, é alinhar-se ao bom Eros, restabelecendo assim a harmonia nos corpos e mentes.

            Existem também características do método filosófico socrático durante a formulação do princípio geral do Amor (diálogo Sócrates-Agatão). Sócrates dizia que Eros era um daimon, mediador entre os deuses e os homens. Ainda segundo Sócrates, diz-se que assim mesmo há sempre a falta, a busca pelo belo, buscando o homem sempre alcançá-lo, e que quando o conseguimos contemplamos o belo por toda a vida. Sendo assim, o filósofo em si é um daimon, pois está sempre em busca da verdade e quer sempre alcançar o verdadeiro conhecimento para chegar à imortalidade. Também a ironia aparece neste discurso, como em 199d (p. 147), 201c (pp. 151; 153), marcando mais uma vez a forte presença socrática na obra platônica. A importância do amor, para Sócrates, está na afirmação do “não saber nada, a não ser a respeito do amor”. O amor socrático já pressupõe a melhora do próprio ser em função do caráter daimônico, resultado da inspiração erótica.

Sócrates mantém sua característica de perguntas ao interlocutor, como em 199ª (p. 146), quando interpela Agatão, buscando mostrar a preocupação exclusiva da aparência em detrimento da realidade. Agatão reage como um discípulo ou um amigo de Sócrates, falando abertamente da ignorância que descobre em si mesmo. Talvez o objetivo socrático fosse que seus discípulos se apaixonassem por ele, mas que não o tivessem apenas como objeto. A insatisfação sexual final, o realce da falta inclusa em todo desejo e todo amor, tinha como provável finalidade a ocorrência da identificação com o próprio Sócrates. Ao invés de serem possuídos ou possuírem fisicamente Sócrates, deveriam elaborar esta impossibilidade, passando a ser como ele, em uma espécie de “ressonância interna”, amando o que ele amava: a Filosofia.

O objetivo socrático era a instauração da metáfora do amor; passar do ter ao ser. E que os discípulos o substituíssem como ativos e desejantes, procurando (como ele) a coerência do significante como única forma de se atingir a verdade. A falta do outro, implícita em toda manifestação do Amor, seria força criadora do espaço para o encontro filosófico.

            Existem mais argumentos que conduzem à formulação do princípio da falta durante o diálogo entre Sócrates e Agatão no Banquete de Platão. O amor possui um objeto direto que levará ao argumento da falta. Busca-se o amor de algo que se deseja e de que não se é possuidor, onde o oposto é estar satisfeito com o que se tem, mas deve-se manter o que se conseguiu no amor, e isso gera que devemos continuar a ter no futuro aquilo que se conquistou para não perdê-lo (200d, p. 149). Logo, os filósofos, enquanto amantes da sabedoria, desejam-na eternamente, talvez nunca conseguindo o status pleno do “ser sábio”. “Só sei que nada sei”, disse Sócrates. O desejo de ter para o futuro é o desejo de ter sempre. Daí associar-se a ideia do bem com a de continuidade, a qual será também ideia referida ao homem, ser mortal, que assume a feição de imortalidade.

Sócrates faz uma proposição de que é amigo do belo e do bom, o que não é nem bom nem mau. A presença do mal no que não é bom nem mal é o que faz tal desejar o belo e o bom, e assim, ausente o mal, o belo e o bom não seriam capazes de suscitar o amor. O amor é carente daquilo que ama, não tem aquilo de que é carente, e não é aquilo que não tem. Se, por conseguinte, seu objeto é o que é belo, ele já não é belo. O belo é então o objeto do amor.

            Como se conectam no discurso filosófico sobre o amor o desejo de ser feliz e o desejo de imortalidade? No objeto do amor procura-se o belo e a felicidade. Ocorre que o belo é imortal. Se buscamos no belo a nossa felicidade, faltando aquilo que não possuímos, nós mortais acabamos por desejar e gerar a imortalidade. E o desejo impulsiona em direção à beleza, à sabedoria, à justiça, e tudo mais quanto nos ofereça o reflexo da ideia do bem. Quando este “topo” é alcançado, porém, revela-se uma espécie de miragem. Segundo Diotima, participante desta discussão platônica, nos seres humanos existe um desejo mais profundo: o da imortalidade. Eros seria então considerado como o desejo de perpetuação, porque as pessoas o veneram, dado que ele é o grande impulsionador deste desejo, uma vez que é o deus da beleza, e o ato de procriar é belo. E amar é desejar ser feliz.

Aos seres humanos só restaria uma saída, levados pelo desejo: procurar as formas de imortalidade reservadas aos mortais, mas que os aproxima do dom máximo dos deuses. Ou seja, a criação. Em geral se denomina criação (ou poesia) tudo aquilo que passa da não existência para a existência. Todos os homens desejariam procriar segundo o corpo e segundo o espírito. A procriação e o nascimento são as coisas imortais num ser mortal. A renovação conduz à felicidade e à imortalidade do corpo. Muitos procriam através do corpo – a imortalidade através dos filhos (a criança que substitui os velhos), e muitos através do espírito, com a imortalidade pela criação da filosofia, da arte e, a mais importante para Platão, da constituição das leis da pólis com a arte política. O belo continua tendo sua função pedagógica: conduzir da beleza de um corpo à beleza de todos os corpos, ao conceito de beleza como modelo, à descoberta do mundo perfeito das ideias e do Bem como ideia suprema. Existe uma visão heraclitiana da realidade com a compreensão das transformações. Se os homens buscam neste mundo a felicidade e a glória, geram para si a imortalidade.

           Os discursos – logoi – com o propósito de educar, isto é, de fazer “espiritualmente” uma criação, são o fruto da geração de um novo ser. Ser este que garante ao seu criador uma imortalidade desta vez ao nível espiritual, nível da alma. A condição do amor é o desejo do bem maior, isto é, da virtude. Este bem é algo que transcende a própria condição mortal do homem. É através de Eros que o indivíduo pode ir ao encontro do belo, visto que o amor propaga-se nos seus descendentes. Por esse motivo, o ser humano preocupar-se-ia em ter frutos de sua união conjugal, pois seu desejo de imortalidade é visto quando sua carga genética passa para seus herdeiros, continuando ele vivo após sua morte em um ciclo infindável, repassando sua herança para outras gerações. Existe um sentido em que podemos afirmar que a “scala amoris” da sacerdotisa Diotima é um método de universalização. Os degraus da escala mencionada no livro de Platão são na realidade três (210ª, p. 171), cada um deles dividido, por sua vez, em dois momentos, na busca pela contemplação do Belo em si.

Segundo Esteban Reyes, pode-se buscar uma associação com o progresso através de degraus ascendentes. No primeiro degrau o amante irá se afeiçoar a um corpo belo e então fará belos discursos. Depois verá que a beleza de um corpo é “irmã” da beleza de todos os outros, e assim, passará a amar todos os corpos belos. É o amor físico não individualizado.

O segundo degrau permitiria passar do amor pelos corpos ao amor pelas almas. O discípulo de Eros afeiçoar-se-á a uma alma em particular, para depois descobrir a beleza moral, a dos atos, que torna belas todas as atividades e comportamentos humanos. Em uma terceira etapa, o iniciado passará dos atos às ciências. Aqui, também inicialmente, o amor será o amor das particularidades das ciências para, em seguida, expandir-se em um amor pela ciência ou saber em geral, e alcançar a ciência única, a da Beleza. Revela-se a beleza eterna e única, o Belo em si e por si, contempla-se a verdade nela mesma (Esteban Reyes Celedón. Do Eros nos ensinamentos de Diotima de Mantinéia: O Amor, uma das vias possíveis para o filósofo atingir o Inteligível, a imortalidade. Acesso em julho de 2006: http://www.geocities.com/profestebanpolanco/eros.htm).  



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